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Sobre o crescimento do alcoolismo entre jovens e a necessidade de regulação publicitária

Certa vez, participando de uma roda de discussão com jovens em situação de vulnerabilidade, espantei-me ao ouvir um garoto de 12 anos, respondendo à pergunta da psicóloga que comandava a sessão, sobre o por quê de ele gastar todo o dinheiro que conseguia no consumo de cerveja. “Porque é bom”, responde o garoto. “E como você sabia que era bom?”, insiste ela. “Porque eu vi na TV”. Foi a primeira vez que ouvi alguém admitir explicitamente que seu estímulo inicial à ingestão de bebidas alcoólicas resultou do incentivo de propagandas comerciais, embora todos saibamos, ainda que intuitivamente, de sua eficácia. Caso contrário, as empresas produtoras não destinariam milhões de suas verbas para este fim e nem teriam um lobby e resistência tão cerrada a cada vez que se fale em regulação deste tipo de publicidade.

O fato é que os jovens brasileiros estão bebendo cada vez mais cedo e em maior quantidade. Uma pesquisa realizada pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) e pela Secretaria Nacional Antidrogas (Senad), de acordo com dados do portal Uol Saúde “revela que o consumo de álcool por adolescentes de 12 a 17 anos já atinge 54% dos entrevistados e desses, 7% já apresentam dependência. O estudo foi realizado em 2004 e mostrou que entre jovens de 18 a 24 anos, 78% já fizeram uso da substância e 19% deles são dependentes.” Creio que uma pesquisa mais recente teria uma tendência de alta em todos esses índices. Para além do sofrimento pessoal e familiar que a doença do alcoolismo, por si só, causa, é preciso considerar o custo direto para seu tratamento no sistema de saúde pública e os custos e riscos indiretos decorrentes da associação entre álcool e direção; álcool e outras drogas; álcool e alteração no comportamento, que, por vezes, gera violência.

O uso abusivo de bebidas alcoólicas, sua glamourização e identificação com a diversão tornaram-se um símbolo de nossa atual cultura jovem. Cabe exigir e ensinar a eles mais responsabilidade no usufruto disso que eles chamam de prazer. Entretanto, seria absurdo desconsiderar a responsabilidade das empresas, do Estado e dos veículos de comunicação que aceitam divulgar suas propagandas. Para uma geração que cresce estimulada ao uso e abuso de álcool, pode ser difícil discernir acerca dos limites e conseqüências desta prática. É por isso que se torna forçoso regular a publicidade do álcool, a exemplo do que se fez com o cigarro e como acontece em vários daqueles países que costumamos citar quando queremos falar de altos padrões de civilidade.

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Antes que me acusem de caretice, este assunto tem chamado a atenção de toda a sociedade. Abaixo, os vídeos de dois bons programas de televisão exibidos recentemente sobre este assunto, "Profissão Repórter" e "A Liga". O contra-senso é que, no intervalo destes programas, não deixaram de ser exibidos os comerciais de bebidas alcoólicas...




 
  
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Sobre racismo, homofobia, Bolsonaro e CQC - quem promove o preconceito?

As declarações polêmicas do Deputado Federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) no programa humorístico CQC, algumas semanas atrás, geraram diversas repercussões e manifestações (pró e contra) que ainda não arrefeceram de todo. O episódio serviu para que se denunciasse os preconceitos e violências sofridas pelos homossexuais, a falta de decoro do parlamentar; para que brotasse uma discussão enviesada sobre temas como “liberdade de expressão” e “politicamente correto”. Os desdobramentos do caso ganharam contornos de luta aberta entre ideologias, em que movimentos neo-fascistas deram as caras em pleno vão do Masp, em São Paulo, em defesa do conteúdo da fala do deputado, havendo confronto verbal com movimentos LGBT e militantes de direitos humanos. Deu o que falar...



Pelo visto, a única coisa que faltou debater foi o papel do CQC e de outros programas ditos humorísticos na disseminação do preconceito – um debate do qual quase todos fogem tal qual o demo da cruz. É muito simples –embora necessário e oportuno (oportunista?) – criticar a postura de Bolsonaro, mas alguém aí já parou para pensar que, as mesmas coisas, se ditas no tom debochado de alguns dos membros do programa passariam despercebidas, ou, no máximo, provocariam uma repercussão diminuta?

O humor, além do papel de entreter, é utilizado como meio de promoção, consolidação e naturalização de preconceitos, que, disseminados desta e de outras formas, contribui para a ocorrência de ações discriminatórias, bullying em ambientes escolares, e, em casos extremos - mas não infreqüentes - agressões físicas e assassinatos. Sim, porque ao contrário do que querem fazer crer os arautos do “politicamente incorreto”, os preconceitos e o clima de tolerância para com eles não surgem por geração espontânea. Faço questão de frisar este ponto por saber que, saídas da boca de algum CQC, bobagens como as que disse Bolsonaro seriam consideradas engraçadas. É mais fácil estar predisposto a condenar atitudes de políticos do que assistir criticamente a um grupo de humoristas famosos e charmosos.

Aliás, CQC – o nome oficial do programa é “Custe o que custar” – remete a uma tática militar chamada “Close Quarter Combat”, que em português se traduz por algo como “Combate em ambientes confinados”. Ela consiste em realizar movimentos treinados com o máximo de precisão para desarmar e atacar rápida e eficazmente o inimigo, com alto grau de proximidade física entre eles e parco aparato bélico. O uso da sigla não é mera coincidência, a se considerar o estilo “projétil verbal” utilizado pelos repórteres. Alguns de seus principais alvos, aliás, são figuras do meio político. Isso contribui para dar ao programa um verniz intelectualizado e “cidadão”, passando a imagem de seus membros como paladinos da justiça, o que serve para encobrir parcialmente o fato de que destilam misoginia e outras formas de preconceito com suas piadas de gosto duvidoso, com a sombra do humor a travestir uma agressão. Como diria Augusto dos Anjos, o beijo, amigo, é a véspera do escarro...

O caso mais escandaloso de demonstração de preconceito por um membro do programa foi uma série de mensagens racistas no twitter e blog pessoais de Danilo Gentili. Para “provar” que não se tratava daquilo, escreveu um texto intitulado “Um post racista” (http://danilogentili.zip.net/arch2009-07-01_2009-07-31.html). A emenda saiu pior do que o soneto: o texto, bizarro, tinha como pomo da discórdia a discussão sobre o significado de apelidar um nego de macaco. Todos sabem – talvez até mesmo os primatas – o que isto representa: não uma referência a inteligência, como Gentili tentou disfarçar, mas sim o rebaixamento simbólico dos negros a uma linha inferior à da humanidade. Dentre outros acintes, também escreveu que os verdadeiros preconceituosos são os pretos – pois a espécie humana não se sub-divide em raças – tentando demonstrar com silogismos a ausência do racismo, como se fosse possível aboli-lo com meia dúzia de golpes de lógica. Infelizmente, não é tão simples assim.

Sugerir a proximidade de um negro com um macaco é inequivocamente uma ofensa – e de reconhecimento universal, como os recentes casos de bananas arremessadas ao gramado para jogadores de futebol brasileiros em partidas no exterior (Neymar, Roberto Carlos) ou a montagem do asqueroso Tea Party, que coloca Obama como um filhote de macacos não nos deixam mentir.


Dizer o contrário – ao invés de se retratar de uma piada infeliz – foi uma ofensa adicional por parte do humorista. Entretanto, a reação àquele episódio foi restrita: até onde sei, uma representação da Ong AfroBrás e alguns protestos pela internet. Apesar disso, não faltou quem saudasse as opiniões de Gentili como demonstrações de argúcia e coragem. Fossem palavras de alguma autoridade – como nosso deputado Bolsonaro – as conseqüências seriam sérias. Contrariamente ao discurso pronto de jornalistas e humoristas quando cobrados a ter responsabilidade pelo que dizem e escrevem, não se trata de “censura” ou “ditadura do politicamente correto”, mas uma exortação para que tenham bom-senso, maturidade e postura ética. Por que a única liberdade que, usada sem restrição, não se choca com os direitos alheios é a de pensamento, e não a de expressão.


Leia também: "Afinal de contas, quem é que votou no Jair Bolsonaro?" http://quantotempodura.wordpress.com/2011/03/29/qtd-analisa-afinal-de-contas-quem-votou-em-jair-bolsonaro/

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Lula é pego em blitz da Lei Seca e perde carteira

Site Patria Latina

Lula é pego em blitz da Lei Seca e perde carteira




Não. É claro, óbvio e evidente que o Lula não foi parado em blitz da Lei Seca. O infrator da vez foi o senador do PSDB e ex-governador de Minas Gerais que mora no Rio de Janeiro (ah, tudo bem, o Sarney é senador do Amapá e mora no Maranhão… ou em Brasília?), Aécio Neves. E se fosse o Lula ou algum outro petista de expressão a ser parado numa operação de trânsito, se recusar a fazer o teste do bafômetro e ter a carteira de habilitação apreendida pelo fato de estar vencida (renovar pra quê, se basta dar uma carteirada, não é mesmo) ?

O blog Quanto Tempo Dura, em mais uma peça genial, dá a dica sobre como seria a cobertura de alguns veículos da nossa respeitável grande mídia.

E se fosse o Lula?



Texto: / Postado em 20/04/2011 ás 07:13

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A gente somos inútil?

“A gente faz música e não consegue gravar
A gente escreve livro e não consegue publicar
A gente escreve peça e não consegue encenar
A gente joga bola e não consegue ganhar
Inútil...
A gente somos inútil!”

Trecho da música “Inútil”, do grupo Ultraje a Rigor



Uma mesa de debates com o título “Ciências Sociais para quê?” ocorreu na semana de recepção de calouros na maior e mais famosa universidade do país. Composta por intelectuais prestigiados, chegou a uma triste conclusão: não servimos para nada...

Como se não bastasse o fato de termos ininterruptamente questionada a validade de nosso curso – a ponto de ser freqüente que o público, em geral, não saiba nem do que se trata, ou nos confunda com assistentes sociais – a crise de legitimidade se instaurou tão profundamente que nos deixou desbaratados: não sabemos mais qual a nossa função, nosso papel, nosso trabalho.

Em tom de brincadeira, Chico de Oliveira diz, ao responder às questões dos estudantes (que, embora participativos, “choviam no molhado” e tornavam o debate previsível e desinteressante), que ele e a Profª Sylvia Garcia, sua colega na mesa, ensinavam “um monte de bobagens”, e que as Ciências Sociais não serviam para nada. Logo depois, mais sério, disse que os estudantes deveriam se debruçar sobre os textos dos autores da área, sem preconceitos. Disse ainda que uma grande obra teórica – como “O Capital”, de Karl Marx – valia bem mais do que muitos trabalhos visíveis, materiais, que somos desancados por não produzir. Por fim, arrematou: nosso papel como cientistas sociais seria, simplesmente, o de “incomodar”.

A afirmação me incomodou. A tal ponto que eu e a amiga a quem acompanhava nos entreolhamos e decidimos ir embora. Saímos da FFLCH comentando o assunto, pensando que tal posição – aparentemente apoiada por muitos, a se deduzir pelo número de cabecinhas assentindo a tal ou qual frase de efeito, algo observável do fundo de um auditório – era alienada, elitista e contraproducente.

Alienada, porque reflete o pensamento da posição de classe de alguém que está no topo da hierarquia acadêmica, com espaço reconhecido como intelectual influente, e que, olhando o mundo deste ângulo, desconsidera a realidade dos jovens que cursam Ciências Sociais hoje. Se houve tanta concordância quanto pareceu haver, eu a atribuiria ao fato de que todos os que pegaram o microfone – e provavelmente a maioria ali, já que se tratava de palestra de recepção de ingressantes – eram, no máximo, alunos do 3º ano e envolvidos com a tradicional e, infelizmente, embolorada militância estudantil radicalizada. As perspectivas do aluno ingressante e do concluinte ou recém-formado sobre o curso tendem a ser discrepantes. Os primeiros, cheios de expectativa e ainda deslumbrados por haverem ultrapassado a barreira do vestibular, acreditam que farão algo grandioso na sociedade, que terão uma excelente carreira acadêmica ou qualquer outra atividade promissora em que eles esperam “fazer a diferença”. Por outro lado, o concluinte, ou recém-formado, com uma visão mais crítica fornecida pela maturidade e pelo acúmulo de frustrações, se vê, freqüentemente, perdido e tendo o futuro próximo como uma incógnita angustiante. Não há espaço para todos na academia; este é um espaço corporativo e, pela influência das relações de poder que se estabelecem em seu interior, acaba por, não raro, ofuscar o debate intelectual sob as chamas das fogueiras de vaidades; não há muito espaço no mercado de trabalho, onde somos considerados inúteis e quase sempre marcados com estigmas indeléveis.

Achar que é suficiente ao cientista social exercer o papel de “incômodo” permanente à sociedade, cai como uma luva à postura arrogante dos jovens estudantes que se mostram infensos a regras e rigores de qualquer natureza, rotulados de antemão como “repressores”. É uma postura elitista pois acomoda o pretenso intelectual, do alto da torre de marfim ou do baixo chinelo sujo, em sua posição de alguém que se limita, quando muito, a falar com um ar de superioridade da sociedade e suas instituições, como se não fizesse parte delas e como se não lhe coubesse o compromisso de envolver-se de forma ativa e relevante nos problemas que a afligem. Acomoda nas imposturas inócuas a falsa consciência de estarem rebelando-se contra a sociedade ao apertarem um cigarrinho de maconha em público, vestirem-se de forma provocativa, revelando sua homossexualidade ou coisas do tipo. Contentam-se em aparecer com um verniz Cult e uma atitude blasé ao invés de buscar estudar a fundo estes fenômenos e lutar de forma politizada e eficiente. Mas pouca atenção se presta às mudanças no mundo e às lutas institucionais por questões como essas, da maior importância também fora dos muros protegidos da universidade. Elitista, também, porque parece desconsiderar que a maioria dos que saem da universidade precisarão inserir-se no mercado de trabalho, que é uma realidade diante da qual não podemos simplesmente dar de ombros, como se a estadia subsidiada na universidade fosse durar para sempre.

Contraproducente, pois ao invés de tomarmos as rédeas da discussão e definição das políticas e diretrizes que dirigem nosso curso e a universidade, nos limitamos a protestar a posteriori de forma caricata com palavras de ordem e manifestações mambembes. Enquanto assumimos este comportamento previsível e estereotipado, do qual já sabemos o script e que o mundo espera de nós, continuamos perdendo espaço no debate público, na universidade, na definição de políticas e em todas as áreas que a atuação conseqüente se faria importante, relegando-nos, ao contrário, ao nicho pseudo-intelectual e distante. Ao invés de pautar, somos pautados de fora e acabamos por dar de bandeja aos nossos oponentes todos os argumentos deque eles se utilizarão para nos deslegitimar, questionar nossa razão de ser e reduzir os investimentos de que necessitamos. Contraproducente, também, porque ao “não servirmos para nada” está a um passo a nossa extinção. Para que desperdiçar dinheiro público em algo inútil?

De incômodos a sociedade já está repleta. Caberia aos cientistas sociais procurar entende-los e formular propostas de interesse social para a tentativa de sua resolução. Já passou da hora de pensarmos em construir uma espécie de “terceira via” para os cursos de Ciências Sociais, elaborado por nós a partir de um debate sério, desradicalizado e sem anacronismos. Considerando a profissionalização e o mercado de trabalho, buscar uma forma de, sem render-se às suas exigências de subordinação, consigamos ser úteis para a sociedade e superar a perspectiva ingênuo-romântico-assistencialista de que faremos a revolução ou somos cientistas sociais para “ajudar a sociedade”, como é comum ouvir na fala de ingressantes. É possível contribuir a partir de qualquer profissão: o que nos distingue? O que faz nosso trabalho importante? O que justifica que a sociedade inteira pague pelos nossos estudos em universidades públicas? Com a palavra, os cientistas sociais. Urge iniciar o debate.
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Timão, paixão e o deslocamento da esperança e da expectativa de justiça

O papel da indústria do entretenimento, como a própria designação denuncia, seria a de entreter, distrair, divertir. Entretanto, às vezes esta esfera é extrapolada e o passatempo transforma-se em algo mais sério, algo emblemático quando observamos, por exemplo, as torcidas organizadas de times de futebol, uma espécie de “tribo” em que a identidade do grupo é definida, reforçada e reafirmada a cada partida. Para além de uma mera distração, o símbolo das equipes é quase um totem sagrado, pelo qual se pode – no limite, literalmente – matar ou morrer.

 

Tempos atrás (este texto está em minha cabeça, esperando para ser escrito, desde fevereiro) elementos da fiel torcida corinthiana protagonizaram atos de vandalismo como forma de manifestação de seu descontentamento com o mau desempenho do time, eliminado do campeonato de futebol mais importante da região, a Taça Libertadores da América. Comentaristas esportivos, imprensa afora, disseram ser aquilo algo puramente irracional, criminoso e que não manifestaria a posição do autêntico torcedor, que, diante da decepção, se contentaria em consolar-se em sua casa ou à mesa de um bar. Talvez a “propensão à honestidade”, o medo de ser apanhado cometendo uma atividade ilícita, impeça o envolvimento de mais torcedores em efetuar esta cobrança, digamos assim, enfática.

Embora a maioria dos torcedores não chegue às vias de fato e manifestem sua insatisfação apenas verbalmente, é notório o envolvimento dos torcedores – especialmente os do Corinthians – com os assuntos do time e as cobranças de resultados. A “Fiel Torcida” – que mostrou merecer seu apelido quando do rebaixamento do clube para a segunda divisão do campeonato brasileiro em 2007 – mesmo em uma péssima fase do time, criou uma forte mobilização com a campanha “Eu nunca vou te abandonar”, incentivando e dando uma prova de amor e fidelidade ao time. Uma espécie de “na saúde ou na doença...” Como diria Toquinho, ser corinthiano vai além de "ser ou não o primeiro".

O orgulho em pertencer à torcida, a ostentação de seus símbolos em camisas e demais acessórios fornecem uma identidade, algo em que se depositar expectativas e esperanças. Em suma: algo em que se acreditar (e torcer). A despeito das inúmeras falcatruas e denúncias de irregularidades que cercam as transações e campeonatos esportivos, e, apesar também, de há muito a indústria do entretenimento e do espetáculo haver suplantado o espírito desportivo, da competição justa e do “que vença o melhor”, as competições esportivas ainda gozam de bastante credibilidade entre o grande público. Os torcedores resistem a ver sua paixão pelo time e pelo futebol transformar-se em outra coisa, em mero comércio (foi inevitável à minha lembrança a estória de Cristo, que teria expulsado mercadores do Templo...). Recentemente, divulgou-se levantamento apontando o Corinthians como a marca esportiva mais valiosa do mercado brasileiro (http://epocanegocios.globo.com/Revista/Common/0,,EMI195470-16370,00-MARCA+CORINTHIANS+E+A+MAIS+VALIOSA+DO+FUTEBOL+BRASILEIRO.html). A torcida, diante disto e das derrotas em campo, reclama e diz que o time, seu elenco e seu símbolo não podem metamorfosear-se em um simples instrumento de marketing e captação de recursos.

Talvez todos estes protestos, desde os verbais até as pichações e quebra-quebras tenham um significado mais profundo que apenas o desejo de ver seu time vencer partidas e campeonatos. Embora sempre chame a atenção o paradoxo de ver as pessoas protestando em relação aos resultados do futebol – que, para além da simpatia por um ou outro time, não possuem relação direta com sua vida, à exceção do laço simbólico – e quase nunca por questões políticas ou que afetem seu cotidiano, como o aumento de passagens de ônibus, mal atendimento em serviços de saúde, etc creio que isto não seja mera demonstração de “alienação” por parte das massas. Não necessariamente porque política seja algo “chato” e futebol e novelas serem “legais” – quando o clima esquenta em época de eleições, são poucos os que permanecem completamente indiferentes. Estas representações, do que é considerado emocionante e do que é maçante, são construídas historicamente. No Brasil, nascemos quase “obrigados” a adorar futebol e a detestar política ou qualquer forma de participação coletiva ou reivindicativa por direitos de cidadania. A política, ou qualquer coisa que se conecte a ela, apesar de afetar em quase todos os âmbitos a vida do indivíduo, não é percebida como algo que lhe diga respeito, e, mais do que isso é algo completamente desacreditado. A sensação – calcada nas experiências de vida das pessoas – de que há um grande descaso das autoridades e políticas públicas, na qual todas as partes envolvidas pensam apenas em como poderão se beneficiar e locupletar-se à custa do desprotegido e impotente cidadão, as faz virar as costas para a política, como sendo algo sujo, de corruptos e as faz ver suas iniciativas em opinar ou reivindicar quase sempre nulas.

 

Tenho a impressão de que a busca por satisfação, por lisura e por justiça, que deveriam ser direcionadas às instituições públicas acabam por ser desviadas para produtos de entretenimento que as pessoas deveriam usufruir, mas, no íntimo, ter uma relação relativamente indiferente. Na prática, dá-se o oposto. Apesar de eu haver iniciado o texto falando a respeito de um clube de futebol, outro fato (também de fevereiro, estou um mês atrasada...) também me chamou a atenção para este deslocamento das expectativas de justiça do que é “sério” para o divertimento: a novela Passione, que, como quase todas as novelas globais das 21hs teve sua fase final extremamente comentada, acabou por decepcionar o público em seu desfecho. Isso porque a vilã da trama, a bela e psicopata Clara Medeiros (personagem vivida por Mariana Ximenes), depois de todas as maldades que cometeu, safou-se, não ficando presa, nem pobre, nem nada de ruim lhe aconteceu. Algo semelhante se deu no final de Belíssima, alguns anos atrás, em que a personagem de Fernanda Montenegro, que cometeu roubos e otras cositas más, também teve um final feliz que revoltou uma parte do público. Mas a comprovação de minha hipótese apresentou-se límpida a mim quando, dias após o término de Passione, uma pessoa próxima, noveleira de plantão, afirmou que não assistiria à novela seguinte. Quando eu a questionei pelas razões, recebi a resposta: ela não gostara do desfecho da novela anterior. Disse-me que, a vilã, ao se ver impune pronunciou: “Esse é o retrato do Brasil”. - “E eu lá quero ver isso? Retrato do Brasil eu vejo de monte, o que eu queria era vê-la punida!”

O futebol, um produto predominantemente masculino, as telenovelas, direcionadas ao público feminino. Em comum, a propriedade de realizar uma espécie de transcendência para um reino de idealismo e fantasia de seu desejo de lisura e justiça, já que concretamente ele é pouco visto e sentido. Entretenimento que encerra a esperança de se ver fazer justiça, de se ver alguma honestidade, algum resultado, de se lavar a alma e se regozijar. Não à toa, quando as pessoas têm problemas que reclamam solução urgente, pensam em resolvê-los (e às vezes de fato conseguem) através da exibição em programas de televisão, e, secundariamente esperam resposta das instituições que deveriam atendê-los de pronto. Isso vai desde o “DNA no Ratinho”, até a denúncia na Globo ou no CQC. O que, para mim, é mais um atestado de falência do poder público...


A torcida corinthiana. Imagem retirada do site de Época Negócios.
"Corinthians é a marca mais valiosa do futebol brasiliro", reportagem de Silvia Balieiro


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Ritmos musicais recém-aprovados no vestibular

Desde que ingressei no curso de Ciências Sociais, no já distante ano de 2006, um elemento da sub-cultura universitária, expandido para o circuito baladeiro e do show business nacional, me intriga: nas festas, i-pods, aparelhos de MP3 e de rádio uma modalidade diferente de música soava: a música "universitária". O primeiro estilo a adentrar o cobiçado espaço das faculdades, ao que consigo me lembrar, foi o forró. Sucedeu-lhe o pagode, o sertanejo – que se encontra, no momento, no auge de seu sucesso – e, nos últimos meses de 2010, “fomos surpreendidos novamente”: o cartaz de uma festa anunciava um ambiente com “funk universitário”. Essa para mim é nova: foi a primeira vez que vi este adjetivo associado ao pancadão, mas não seria nenhuma surpresa vê-lo ganhar corações, mentes e corpos que descem até o chão de pessoas matriculadas em instituições de ensino superior Brasil afora.

Por detrás da alcunha “universitário” – uma classificação adotada de forma a demarcar diferenças – ou melhor, antes dela, encontram-se ritmos musicais depreciados estética, cultural e moralmente como inferiores pelo respeitável público de “bom gosto” que freqüenta as universidades. São manifestações musicais típicas de grupos populares, alvos de inúmeros preconceitos, como o de que seriam “baixos” e de mau-gosto: segundo representações comuns, forró é “rala-bucho” de nortista brega e safado. Pagode não seria música, seria lixo criado por aqueles neguinhos sem cultura, “manos” sem estilo, ostentadores extravagantes com suas roupas e acessórios estrepitosos e cabelos pintados de loiro. Sertanejo, pura cafonice caipira dos “pé-vermeio”, terrível! E agora o funk? Aquela putaria?

Aparentemente, “universitário” é uma palavrinha mágica dotada do poder de elevar qualquer coisa a “nível superior”. Nossas classes médias e altas (e os aspirantes a ela, já inebriados e adeptos de sua ideologia classista), que sempre confundiram, proposital e convenientemente, elite econômica com elite intelectual e cultural, ao se renderem às manifestações musicais populares – muitas delas, verdade seja dita, de qualidade discutível – não poderiam, de forma alguma, dar testemunho de seu mau-gosto. Rebatizar forró, pagode, sertanejo e funk de “universitários” parece ter sido o meio encontrado por estes setores para curtirem sem peso na consciência seu verdadeiro deleite musical, com a ilusão de que, chamando os estilos de “universitários” se distanciam da suposta inferioridade cultural dos grupos sociais originalmente produtores e apreciadores daqueles ritmos. Procuram manter a “necessária” distinção, manter a “classe”. Porém, como diria a já clássica letra de Tati Quebra-Barraco: “é som de preto, de favelado; mas quando toca, ninguém fica parado!”

O ódio presente no discurso dos setores que não apreciam estes estilos – ou dos enrustidos que não têm coragem de admiti-lo, para manter seu verniz Cult, mas que nas festas os cantam e dançam freneticamente – geralmente não se limita à crítica estética, se é que a alcança, mas utiliza-a para disfarçar o preconceito de local e de classe, e demarcar distâncias e hierarquizações. Por trás da ojeriza, que precisa ser declarada pública, agressivamente e em alto e bom som ao forró, pagode, sertanejo e funk, vejo a necessidade de afirmação de superioridade da juventude do sudeste por sobre a cultura nordestina; das classes médias, altas e aspirantes ao que é produzido por pobres; dos moradores de áreas urbanas que querem afirmar sua pretensa modernidade frente ao atraso rançoso que cerca o “sertão” e da promiscuidade sexual e baixos valores morais que cercariam os funkeiros favelados.

Não se trata, aqui, de negar às pessoas o livre discernimento e escolha daquilo que irão ou não ouvir ou gostar: eu mesma não aprecio alguns dos ritmos em questão. Mas isso não me faz odiá-los, vociferar contra eles e os grupos que originalmente os produziram, ou, por outra, inventar uma demarcação artificial para me permitir gostar daqueles estilos sem “descer do salto” e “baixar o nível”. O ponto que eu gostaria de destacar é que a maioria das críticas que ouço àqueles estilos musicais não são críticas musicais, estilísticas, estéticas, artísticas ou coisa que o valha: são uma forma socialmente aceita de externar preconceitos contra as classes populares e consolidar as representações sociais que as descrevem como culturalmente inferiores. Se não, como explicar as poucas críticas que recebem alguns estilos ou “artistas” cuja qualidade artística de sua produção é bastante questionável, mas não está associada a grupos “subalternos”? Como explicar a ausência de crítica – e, quando ocorre, desprovida daquela indignação inconformada que cerca as críticas às “músicas de pobre” – a este pseudo-rock de doer os ouvidos? Às músicas tolas de cantores pop nacionais e estrangeiros? À “putaria” do rap e do pop norte-americanos? Como diriam os Titãs: “Um idiota em inglês/Se é um idiota, é bem menos que nós/ Um idiota em inglês /É bem melhor do que eu e vocês”...

A maior “prova” de que o pano de fundo e as razões profundas da acerba crítica às manifestações musicais de grupos nacionais subalternos não são estéticas e sim classistas é quando ouço os comentários acerca das mesmas músicas interpretadas por cantores de diferentes estilos. A música “Esperando Aviões”, do compositor mineiro Vander Lee, considerado uma das maiores revelações recentes da MPB foi descrita como “lixo”, “melosa” por uma colega wanna be que diz adorar MPB e não conhecia a origem da música, quando a ouvimos cantada por um grupo de pagode. Duvido que a reação seria a mesma se ouvisse a versão de Lee. As músicas são descritas, integralmente, sem pestanejar e sem uma crítica mais detida pela decomposição de seus elementos (letra, arranjo, voz do cantor, etc) como ruins, totalmente ruins. É como se “Baba baby” de Kelly Key e Maria Gadu, “É o amor” de Zezé de Camargo & Luciano e Maria Bethania e “Fico assim sem você” de Claudinho & Buchecha e Adriana Calcanhotto – só para citar alguns exemplos que me vêm a mente – não mantivessem a mesma letra e melodia. Há que se argumentar que a voz de uns é superior a de outros – e eu devo concordar, sem dúvida! – mas, se desde o começo o problema fosse apenas a interpretação do cantor e não a música em si, por que classificá-la, raivosamente e sem mais de “lixo”? O desprezo dirigido a alguns artistas e o prestígio concedido a outros (mesmo quando gravam músicas terríveis, mas têm um nome estabelecido na praça) é transferido àquilo que produzem, e isso me faz pensar que a crítica não é musical (como seria se a argumentação se baseasse em que o tal “não canta nada”), e sim se dirigem ao próprio cantor e a classe que ele representa, com frequência, com suas origens biográficas.

Mas, caros colegas, sem stress! “Seus problemas acabaram”: o rótulo e a nova geração de cantores “universitários” estão aí para permitirem que vocês gozem em toda a plenitude de seu mau-gosto, e sem peso na consciência!
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Capital da contradição

Revista do Brasil:

Dados do IBGE mostram que o número de casas vazias no país é maior do que o de famílias sem teto – essas que, em cidades como 
São Paulo, com 290 mil imóveis desocupados, ainda são tratadas como criminosas

Por: Leandro Melito

Publicado em 03/01/2011


Abandono: objetivo das ocupações é fazer com que imóveis tenham finalidade social. Foto: Danilo Ramos

No final do ano passado, em 25 de novembro, a Avenida Ipiranga, no centro de São Paulo, acordou com assovios, apitos e barulho de garrafas pet vazias chocando-se contra as sacadas do prédio localizado no número 895. Os 15 andares estavam ocupados por 840 famílias prestes a serem desalojadas. Semanas antes, o proprietário, HM Engenharia, empresa do Grupo Camargo Corrêa, havia obtido na Justiça direito à reintegração de posse. O advogado dos sem-teto, Manoel del Rio, afirma que a propriedade não cumpre função social. “Da forma como o proprietário utiliza o prédio, ele não é bom para a cidade. O Judiciário não atendeu ao nosso pedido para que houvesse uma audiência sobre o imóvel com as partes envolvidas”, diz. Procurada, a HM informou por meio da assessoria que não se pronunciará até que tenha resposta para um projeto de habitação popular para o prédio, apresentado à prefeitura.

Exatamente um ano antes, as mesmas famílias foram desalojadas do terreno Alto Alegre, no bairro de São Mateus, periferia leste da cidade. Na ocasião, foram informadas da reintegração no exato momento de sua execução e retiradas de forma brutal. No dia 25 de novembro de 2009, acordaram com o barulho dos tratores, tiveram as casas derrubadas e incendiadas e perderam seus pertences. “A gente não foi nem avisada que teria reintegração. Acordamos por volta das 4 da manhã e os policiais já estavam lá. Mal conseguimos tirar a roupa de dentro dos barracos”, conta Maria do Planalto, coordenadora do Movimento Terra de Nossa Gente.

Na Avenida Ipiranga, as famílias saíram de forma pacífica. Foram até a Câmara Municipal, onde se encontraram com famílias que já estavam ali acampadas, após a reintegração de um prédio na Avenida Nove de Julho, propriedade do INSS, realizada em 18 de novembro. Essas ocupações foram simultâneas a outras duas, nos edifícios nas avenidas Prestes Maia, 911, e São João, 88. Coordenados pela Frente de Luta por Moradia (FLM), 3.800 sem-teto ocuparam os quatro prédios em 4 de outubro. “A ideia das ocupações é acelerar processos de desapropriação na região para fazer habitação de interesse social”, informa Osmar Borges, coordenador do movimento.

Dados do Censo 2010 divulgados pelo IBGE mostram que existem no Brasil mais de 6 milhões de domicílios vagos. O número supera em cerca de 200 mil os 5,8 milhões de famílias brasileiras que não vivem em locais considerados adequados. O cálculo é do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP) com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE. São Paulo, segundo o Sinduscon, tem 1,112 milhão de domicílios vagos e 1,127 milhão de famílias sem casa adequada. Portanto, bastariam 15 mil novas moradias para resolver o déficit habitacional do estado.

Moradora chora ao ser despejada de prédio na Avenida Ipiranga. Foto: Mauricio Morais

Para a urbanista Ermínia Maricato, criadora do Laboratório de Habitação e Assentamentos Humanos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, os movimentos organizados prestam um serviço à cidade ao chamar a atenção para o número de imóveis ociosos, que não cumprem a função social da propriedade, prevista na Constituição e no Estatuto da Cidade. Ela afirma que o poder público induz a população a ocupar áreas­ periféricas. Nas proximidades das represas Billings e Guarapiranga vivem cerca de 2 milhões de pessoas. “Se um imóvel no centro é ocupado, o Judiciário concede liminar rapidamente. Quando é área de proteção ambiental na periferia, que deveria ser cuidada pelo Estado, nada acontece”, afirma Ermínia, secretária de Habitação e Desenvolvimento Urbano da Prefeitura de São Paulo de 1989 a 1992.

Violação de direitos

Na ocupação do prédio da Ipiranga, uma equipe foi na frente para cuidar dos elevadores e evitar acidentes. As famílias subiram até o quinto andar. O eletricista Domingos Martins fez a instalação elétrica nas escadas e corredores. Faltou fiação para completar dois andares. O problema maior foi a falta de água. No quarto dia, eles encontraram um poço artesiano e três caixas d’água.

Martins trabalha com comunicação visual, faz letreiros e está há 12 anos na luta por moradia. Vive no bairro Colorado, na zona leste. “Aqui a gente está bem, é cinco estrelas (risos), tem quarto até com carpete. O sonho maior de um trabalhador é um lar. Ele tira do salário, mas sabe que está construindo alguma coisa para ele e para os filhos.”
Dagmar Maria de Jesus, que ganha R$ 500 por mês como diarista, dividiu um quarto com quatro famílias. Raimunda Oliveira dos Santos, também diarista, tem três filhos e dois netos. Com 53 anos, não consegue trabalho com carteira. “Eu não vou deixar meus filhos na rua.” Robinson Xavier de Oliveira paga R$ 300 de aluguel em um barraco na favela com o seguro-desemprego. “Em vez de aluguel, eu poderia pagar uma coisa minha e da minha família.” Edvania Florentino da Silva, desempregada, tem dois filhos e morava de favor. “Chorei quando vi a reportagem da Globo. Eles tratam a gente como bandido.”

Tropa de choque chega para fazer cumprir decisão judicial de desocupar o prédio (abandonado) da construtora Camargo Corrêa. Foto: Mauricio Morais

No dia seguinte à ocupação, os sem-teto foram impedidos por policiais de receber água ou alimentação. Patrick Wilken, pesquisador da Anistia Internacional, afirma que a polícia agiu de forma ilegal. “Nessa situação, a polícia tem de dialogar, não pode impedir as pessoas de entrar ou sair do prédio.” Ele visitou as quatro ocupações e se reuniu com a superintendente de Habitação Popular da prefeitura, Elizabete França. “A prefeitura não está oferecendo uma resposta adequada aos problemas seríssimos dos moradores de baixa renda. Oferece só uma resposta emergencial para um problema que existe há muito tempo”, critica, referindo-se a uma bolsa-aluguel de R$ 400 concedida às famílias.

Segundo Maria do Planalto, quando as famílias foram desalojadas do terreno do Alto Alegre começaram a receber o auxílio, cortado após o terceiro mês. Em reunião realizada em abril com a Secretaria de Habitação­ de São Paulo, o Ministério das Cidades, a Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado e a Caixa Econômica Federal, foi acertado que as famílias receberiam a bolsa num primeiro momento e, em seguida, seriam integradas ao programa Parceria Social, que concede auxílio de R$ 300 mensais por 30 meses, até serem encaminhadas para uma moradia­ definitiva. Maria afirma que o acordo foi quebrado.

Em 18 de novembro, após a reintegração de posse do antigo prédio do INSS, as famílias acamparam numa praça em frente à Câmara. Na tarde do dia 22, caía uma chuva forte em São Paulo e, enquanto tentavam se proteger embaixo das lonas, elas foram surpreendidas por uma ação violenta. A Guarda Civil Metropolitana usou bombas de gás, cassetetes e sprays de pimenta para forçar as famílias a deixar a praça. Dez mulheres e sete homens foram feridos. O estudante Jonatan Silva tentou registrar a ação, mas foi agredido e teve sua filmadora danificada. “Eles me deram dois tapas, um soldado pegou minha máquina e jogou debaixo do viaduto”, conta.

As famílias da Ipiranga permaneceram 12 dias acampadas em frente à Câmara. Foram proibidas de amarrar as lonas das barracas nas grades da casa legislativa ou nas árvores da calçada, “para não depredar o patrimônio público”, e também de utilizar seus banheiros. No início de dezembro, lideranças apresentaram à prefeitura uma lista de 357 famílias, e o governo se prontificou a atender 111 pelo Parceria Social. Foram firmados compromissos de inclusão das demais no programa Minha Casa, Minha Vida e de participação do movimento no processo de desapropriações e reformas de 53 prédios no centro da cidade a serem destinados à moradia popular.

Revitalização para quem?

A prometida desapropriação será feita com verba do Fundo Municipal de Habitação. Mas a prefeitura ainda não indicou como será a destinação desses prédios, informa Kazuo Nakano, urbanista do Instituto Pólis. “Os critérios de atendimento e participação dos movimentos por moradia estão completamente obscuros. Falta aprofundar a utilização justa desse patrimônio, que será reaproveitado com dinheiro público. Será muito grave se a prefeitura usar esses prédios para favorecer negócios imobiliários”, alerta.

Nenhum dos prédios identificados para desapropriação está dentro do perímetro reservado para o projeto Nova Luz, anunciado pela prefeitura como de revitalização do centro. “Isso quer dizer indiretamente que a vida que existe ali não interessa, embora seja o lugar da cidade que tem mais vida, mas que não dá lucros para o mercado imobiliário”, afirma João Whitaker, urbanista da FAU. Antes de iniciar a revitalização, a área teve a imagem degradada pelo fortalecimento do rótulo de criminalidade. Andrea Matarazzo, subprefeito da Sé e secretário de Coordenação das Subprefeituras (2005 a 2009), estigmatizou a região da Luz como cracolândia.

A manutenção do espaço (coleta de lixo, varrição de ruas, restauração da sinalização viária, sinalização de pedestres) também deixou de ser feita da mesma maneira como é realizada em outras regiões. Em agosto de 2009, o prefeito Gilberto Kassab fez um corte de 20% nos contratos de varrição de ruas e recolhimento de entulho, e em outubro anunciou corte de 10% nos contratos com as empresas de coleta de lixo. Segundo Ermínia Maricato, isso faz parte da construção das “novas centralidades” engendradas pelo mercado imobiliário. “Primeiro, tem-se a construção da degradação, e depois a construção de uma nova centralidade.” O processo de revalorização inflaciona o preço dos imóveis e expulsa do centro as pessoas de baixa renda. “Os imóveis ficam vazios por interesses especulativos do mercado”, afirma Whitaker.

Na execução do projeto Nova Luz, pela primeira vez o governo municipal irá transferir para a iniciativa privada uma prerrogativa que constitucionalmente é do Estado: o grupo que ganhar a licitação terá o direito de fazer as desapropriações que julgar necessárias para realizar as obras de revitalização. Em seguida, quem vencer outro processo, de concessão urbanística, poderá desapropriar e explorar economicamente os espaços público e privado do perímetro.

“Chegamos no limite da configuração do espaço urbano unicamente como uma mercadoria e não como território de efetivação de direitos”, sentencia Nakano. A Central de Movimentos Populares (CMP) acompanha diversos projetos que têm provocado remoção da população, além do Nova Luz: a requalificação das marginais do Tietê já removeu 18 favelas; o projeto do Parque Linear do Tietê, na zona leste, vai remover mais de 20 mil famílias; a obra da Operação Urbana Águas Espraiadas, na região do Jabaquara e Americanópolis, mais de 10 mil; e o projeto de requalificação do Parque Dom Pedro II. “Não temos nada contra melhorar a cidade e fazer a recuperação do patrimônio histórico. Mas isso tem que atender a população de baixa renda e não expulsá-la”, reivindica Benedito Roberto Barbosa, o Dito, coordenador da CMP.

Solução ao alcance
Depois de tomar conhecimento do programa Morar no Centro, em 2002, o proprietário do edifício Joaquim Carlos, localizado no bairro paulistano do Belém, procurou a Secretaria de Habitação. O imóvel foi adquirido em 2004 por R$ 1,7 milhão, valor referendado pela Caixa federal. O prédio antes abrigava 120 unidades do tipo sala-quarto, predominando apartamentos com área útil inferior a 37 metros quadrados. O projeto de reforma criou 48 quitinetes, 42 apartamentos com um dormitório e três unidades adaptadas para deficientes físicos, com áreas entre 40 e 57 metros quadrados. Foram atendidas famílias com renda entre três e cinco salários mínimos, ligadas ao movimento de moradia União de Lutas dos Cortiços e outras cadastradas pela prefeitura. A gestão do condomínio é terceirizada – uma comissão formada por 11 moradores acompanha os trabalhos e orçamentos apresentados pelas administradoras. Alguns deles, segundo suas aptidões, fazem trabalhos de manutenção, contribuindo para manter um valor baixo do condomínio, R$ 120. As prestações variam de R$ 195 a R$ 290.
O empreendimento, entregue em 2007, encontra-se em ótimas condições, com todas as unidades ocupadas. Foi prevista uma área de lazer no mezanino com mais de 200 metros quadrados, que ainda abrigará sala de computação e biblioteca. Nos fundos, há um grande salão de festas com cozinha e sanitários. Para reduzir prazos e custos, foi essencial o empenho do proprietário no processo de negociação, principalmente na regularização da matrícula do imóvel.
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Sobre alpinistas em montanhas de luxo e morros de risco - responsabilidade pessoal e consciência do perigo


Neste início de ano, ouvindo a uma rádio de notícias, duas reportagens sem conexão alguma, mas tocadas na sequência, me pareceram extremamente encadeadas, pelo paradoxo que saltou subliminarmente aos meus ouvidos: o desaparecimento do alpinista brasileiro Bernardo Collares, em uma montanha da Patagônia, e as inundações em áreas urbanas na região sudeste. No primeiro caso, o atleta escalava o monte Fitz Roy, que, ao que consta, é “considerado por muitos alpinistas profissionais como o maior de todos os desafios do seu esporte, porque suas paredes verticais requerem técnica impecável para serem conquistadas. Ademais, o clima da região é excepcionalmente ruim e traiçoeiro — fato que já custou a muitos suas vidas.” (http://pt.wikipedia.org/wiki/Cerro_Fitzroy). Sua família cobrou veementemente do governo brasileiro, e criticou as autoridades argentinas, pelo não-resgate do corpo do alpinista, que, machucado e em condições climáticas tão adversas, não teria chances de ser encontrado vivo. A carta aberta de Katia Arantes ao Itamaraty, foi reproduzida no blog de Fernando Gabeira, em que ela critica a falta de investimento dos governos argentino e chileno, afirmando que ambos “fingem que é natural os montanhistas serem abandonados a própria sorte, fazendo das montanhas da Patagônia um túmulo inacessível onde os familiares não podem chorar os seus mortos. A desculpa deles é que os montanhistas não avisaram aos órgãos publicos locais que iriam subir a montanha. Essa burocracia é apenas para ajudá-los a lavar as mãos em casos fatais de estrangeiros.” (http://blogs.estadao.com.br/fernando-gabeira/2011/01/08/apelo-por-montanhista/)
O segundo caso, que não deixou o noticiário por ser uma tragédia cujos desdobramentos ainda encontram-se em curso, é um roteiro que se repete todos os anos, e que, de tão previsível, poderia ser incluído no calendário de verão: os deslizamentos de moradias situadas em áreas de risco, inundações de cidades, perdas humanas e materiais. As chuvas, somadas à falta de planejamento urbano, descaso de autoridades e efeitos de mudanças climáticas produziram alagamentos e prejuízos em regiões de São Paulo, Minas Gerais, e, de forma mais dramática, na serra do Rio de Janeiro (este último, está sendo considerado por alguns como o maior desastre natural da história do Brasil.) Mas seria de extrema ingenuidade ou evasão considerar estas catástrofes como apenas “naturais”, por diversas razões: a ocupação de encostas de morros e demais áreas de risco se dá pela impossibilidade de a população de baixa renda adquirir imóveis em outras regiões, cujo preço, nas grandes cidades, é inflacionado pela especulação imobiliária; pela ação de políticos e lideres comunitários demagogos, que incentivam ocupações em terrenos impróprios, para fazer dali um curral eleitoral, e que, em momentos como esse, desaparecem como se não lhes coubesse nenhuma responsabilidade; pela inépcia do poder público em impedir essas construções quando estão no início, e ainda as incentivarem, indiretamente, fornecendo serviços de abastecimento de água, energia elétrica e asfalto a essas regiões, legitimando sua existência no local. Considerando todos esses fatores, fica difícil interpretar essas tragédias como catástrofes naturais – são, pelo contrário, desastres sociais. O único fator “natural”, nesse caso, seriam as mudanças climáticas que estão aumentando a intensidade pluviométrica na região sudeste do Brasil, como nos informa o jornalista André Trigueiro, especializado em meio ambiente (http://cbn.globoradio.globo.com/comentaristas/andre-trigueiro/2011/01/15/MUDANCAS-CLIMATICAS-DEIXAM-CHUVAS-CADA-VEZ-MAIS-SEVERAS.htm). O que não deixa de ser, também, fruto da ação humana.

O ponto que eu gostaria de abordar, e que conecta as duas notícias, é a questão da noção do perigo por parte dos indivíduos envolvidos, e as responsabilidades pessoal e do poder público diante do risco que cada uma dessas pessoas, nas diferentes situações, assume. No caso do montanhista desaparecido, parece conveniente a seus parentes, algumas personalidades e “anônimos” internet a fora apontar a responsabilidade ao governo brasileiro, através do Itamaraty, e dos governos da Argentina e Chile por não resgatar o corpo de Bernardo. Embora seja compreensível a dor da família, que em seu desespero tanta de todas as formas encontrar um ente querido, ainda que morto, cabe a nós questionar: é dever do Estado brasileiro zelar pela segurança e integridade física de um cidadão que, privadamente, decide escalar uma montanha perigosa em um país estrangeiro? Caso o sujeito em questão não estivesse em missão oficial – como não estava – praticando um esporte por livre e espontânea vontade, em busca de prazer e realização pessoal e ciente do perigo, qual a relação das autoridades com esta ocorrência? A meu ver, nenhuma. Um problema particular.

Completamente oposta é a situação dos pobres urbanos que vivem em situação de risco, cujas vidas são responsabilidade do poder público. Entretanto, esta opinião está longe de ser unânime, apesar do relativo amadurecimento da imprensa ao tratar desta questão, pois já não se vê, como antes, âncoras e repórteres culpando a população por morar em lugares perigosos e insalubres. Mas não é esta a visão do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, que, de acordo com reportagem do portal G1 declarou que os moradores de áreas de risco têm consciência da situação do lugar e por isso devem tratar de se mudar (http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2011/01/para-kassab-morador-de-area-de-risco-sabe-do-perigo-e-deve-se-mudar.html). Para o prefeito, o problema de habitação na cidade é privado, e cabe às unidades familiares resolvê-lo e responsabilizarem-se individualmente por sua sorte ao ocuparem tais áreas. Kassab lava suas mãos diante de um problema de planejamento urbano, que é de responsabilidade das autoridades municipais desde a fiscalização de regiões de preservação e risco de deslizamento – impedindo a construção de imóveis ali, desde seus primeiros tijolos – até a situação da especulação imobiliária e predial da cidade.

Segundo dados do Grupo Estado, de dezembro de 2008, havia na cidade de São Paulo 400 mil imóveis desocupados, para um défcit habitacional de 700 mil moradias (http://www.nossasaopaulo.org.br/portal/node/2199). Dados preliminares do Censo 2010, divulgados no último mês, mostram que no estado de São Paulo há 1.112.000 de casas vazias, enquanto que o Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP) estima que haja 1.127.000 famílias sem teto ou com residências inadequadas. O défcit habitacional “real”, portanto, seria de apenas 15 mil moradias. Em âmbito nacional, os dados são ainda mais surpreendentes: o número de casas vazias supera o de famílias que necessitam de moradias (http://www.brasil.gov.br/noticias/arquivos/2010/12/13/numero-de-casas-vazias-supera-deficit-habitacional-do-pais-indica-censo-2010).

Antes de morrer, Bernardo Collares deu uma declaração em que expressava seus motivos para escalar: “As montanhas são uma espécie de reino mágico onde, por meio de algum encantamento, eu me sinto a pessoa mais feliz do mundo”. (http://odia.terra.com.br/portal/rio/html/2011/1/plano_para_resgatar_alpinista_135637.html).
Buscava sua felicidade, como propõe o marketeiro projeto de lei de Emenda Constitucional que visa incluir este “direito” na Carta Magna brasileira (http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,buarque-quer-pec-que-da-direito-a-busca-da-felicidade,557159,0.htm). Melhor seria se o Congresso se ocupasse na tentativa de viabilizar o direito à moradia digna, que já se encontra na Lei e é responsabilidade pública, deixando a felicidade e sua busca a critério privado dos cidadãos.
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Coisas de homem, coisas de mulher - a adequação aos papeis

A intenção era mesmo a de escrever o post dessa semana sobre a situação da mulher – mais uma vez e sempre, enquanto necessário, estarei eu aqui a hastear a bandeira de mais este “-ismo”. Sim, essa é a forma pejorativa a que muitos – e muitas – deslegitimam, sem pestanejar, a árdua e inglória luta pela igualdade de direitos e dignidade entre os sexos. Na falta de tempo e inspiração para fazê-lo antes, ligo a TV desanimada em mais um fim de noite, e aí me surge a ponta do novelo: uma reportagem sobre as liquidações de início de ano nas lojas, explorando a imagem das mulheres, “naturalmente” afeitas ao consumismo. Mas a gota d’água foi apresentar “até um homem” aderindo aos super descontos, como se fosse algo de extrema raridade, e, por isso, digno de destaque.

Nessas e noutras representações – através de anúncios publicitários, novelas e nas mais diversas formas de discurso – reitera-se a caricaturização da figura feminina como fútil, compulsivamente preocupada em comprar, de preferência pagando com o cartão do homem que a sustenta. Numa visão mercantil das relações afetivas, em que se espera da mulher que assuma a posição de “prostituta de um homem só”, a estereotipia produz, como numa imagem em negativo, os contornos das relações de poder distribuídas entre os sexos: os homens detêm o poder econômico e as mulheres o poder da manipulação através da beleza física e dos dotes afetivos. A eles, o poder conferido pela cultura, a elas, os atributos “doados” pala natureza. São conhecidas e infames as oposições: razão x emoção; lógica x intuição; dureza x sensibilidade, dicotomias sempre evocadas quando se procede às comparações entre o masculino e o feminino.
É verdade que os homens, quando não se encaixam nos papeis masculinos que lhe são impostos (como os que que gostam de atividades tidas como femininas, a exemlo da dança; os homossexuais, frequentemente apelidados de “mulherzinhas”), sofrem com os padrões impostos, também opressores. Margaret Mead, antropóloga norte-americana que realizou trabalhos de campo em tribos da Nova-Guiné entre as décadas de 1960 e 70 (estudo que culminou no famoso livro Sexo e Temperamento), explicita, através do contraste com outras culturas, que os comportamentos masculinos e femininos que observamos nas sociedades ocidentais nada tem de natural, sendo apenas uma construção histórica e cultural específica. Chega ao final da obra com a proposição que nossas sociedades se tornem mais flexíveis e abdiquem de impor a homens e mulheres comportamentos estereotipados, permitindo-lhes desenvolver sua personalidade de acordo com suas aptidões e características individuais, em quaisquer direção que caminhem.

O falo e o poder


Nossa cultura relegou historicamente as mulheres à submissão aos homens, e as relações de poder existentes na contemporaneidade encontram-se indelevelmente marcadas por esta milenar cisão, apesar dos avanços. A tradição ocidental, judaico-cristã, que em seus textos sagrados descreve o homem como “a cabeça” lamentavelmente ainda contribui para formatar as mentes femininas em sua freqüente aversão ao comando, exceto das maçantes atividades domésticas. A versão profanizada as enxerga apenas como objetos – sexuais e de trabalho servil, comandado e “leve” – jamais como sujeitos, e ambas as vertentes contribuem para solidificar, até ao ponto de tornar imperceptível e natural à maioria das pessoas, que existem “coisas de homem” e “coisas de mulher”, e que apenas às primeiras competem a ação, a força, o comando e o poder.

A definição de posições sociais, visões de mundo e mesmo o próprio “interesse” (que, a princípio, pode parecer mero reflexo do “instinto”; ou, numa versão mais intelectualizada, de autonomia e “livre-arbítrio”) encontram-se viciados por ideologias e mecanismos sociais que são instituídos e definidos pela relação de dominação. É o que Bourdieu conceituou como “violência simbólica”:

A dominação masculina é uma dominação de tipo particular que, por mais que se diga o contrário, não repousa sobre a violência física... Ela repousa sobre o que chamei de violência simbólica, ou seja, a violência que resulta do fato de as pessoas terem na cabeça princípios de percepção, maneiras de ver que são produto da relação de dominação. Isso não quer dizer que as mulheres sejam fracas, idiotas, submissas, quer dizer que as estruturas sociais levam-nas – desde a infância, na família, na escola – a incorporar, interiorizar um tipo de relação masculino-feminino, através, por exemplo, do sistema de adjetivos.
A distinção entre hard e soft... entre as ciências duras e as ciências moles, é masculino-feminino. Quanto mais nos aproximamos das ciências moles, mais elevada é a proporção de mulheres encontradas e inversamente para os homens. Se as coisas se passam dessa forma, não é porque dirigimos as mulheres para o social, para o feminino, para as belas-artes, enquanto os homens ficam com as matemáticas, a física; é também porque as mulheres pensam que não são dotadas para essas matérias, que são feitas para as primeiras, que as últimas não lhes interessam. (Pierre Bourdieu entrevistado por Maria Andréa Loyola. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2002).

As mulheres que rompem barreiras que as segregavam a determinadas áreas sofrem diversos preconceitos, entre eles o de “não serem mais mulheres”. Vi isso durante a campanha presidencial, ao ouvir mais uma piada sem graça do CQC: sem Marina no segundo turno, o Brasil perderia a oportunidade de ter a primeira mulher na presidência em 2011. Enquanto um falava, outro dos machistas da bancada imitava os trejeitos supostamente masculinos de Dilma. Então firmeza, competência técnica (em uma área dominada por engenheiros, como é a de Minas e Energia, especialização da presidente), perfil gerencial, voz grave e cabelos curtos – além, óbvio, do cargo que disputava – fazem dela menos mulher? Pior: os rumores de que ela seria homossexual, apenas por ser divorciada, e como se fosse este o cerne da discussão quando se avalia a aptidão de alguém a um cargo público (preconceito que, façamos justiça, também atinge o atual prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, por ser um homem solteiro).

É por isso que adoro ver um “troca-troca”, homens fazendo “coisas de mulheres” e mulheres fazendo “coisas de homem”, embora não possa negar meu maior deleite nas últimas, pois sinto me dizerem respeito mais diretamente: além de indivíduo descontente com as imposições sociais, também enquanto membro do mais oprimido gênero. É ótimo ver Dilma na presidência, e este é mais um importante tijolo derrubado nos tabus que separam o que é atribuição feminina ou masculina na política, assim como ver o aumento no número de ministras, uma delas, na equipe econômica. Mas o caminho da mulher na atividade política é cheio de avanços e recuos: não avançamos no parlamento e nem conseguimos cumprir a lei que determina a obrigatoriedade de 30% de candidaturas de mulheres. Gostei de ver o carro de posse de Dilma cercado por seguranças do sexo feminino, assim como adoro igualmente de vê-las engenheiras, policiais, motoristas de coletivos, jogadoras de futebol etc, rompendo, pouco a pouco, o cordão simbólico que determina as posições sociais a partir de diferenças biológicas.
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Reformismo revolucionário: a estratégia da esquerda latino-americana*

"Estado", "política", "história", "revolução" são as ferramentas da esquerda latino-americana para atacar as consequências e também as causas do capitalismo, promovendo ao mesmo tempo a integração do Continente em termos políticos, econômicos, sociais e culturais. A estratégia pode ser condensada na fórmula do pensador judaico-romeno Lucien Goldmann: "reformismo revolucionário".

Algumas palavras pareciam condenadas à lata de lixo, sob a pressão doutrinária das últimas décadas. "Estado" é uma delas. Acusado de perdulário, mastodôntico e ineficiente em contraposição à livre iniciativa, apresentada como paradigma, o aparelho estatal foi execrado para justificar as desregulamentações e o desmonte que vitimaram os serviços públicos. Embalados pelo canto de sereia do fenômeno divulgado na condição de uma tendência inexorável, que converteria o planeta em uma aldeia global, muitos inclusive, iam ao cúmulo de classificar de inútil a escolha de presidente para os Estados nacionais. As eleições teriam perdido o sentido frente a uma realidade na qual as linhas principais da política econômica seriam ditadas pelo FMI e o Banco Mundial. Das "Diretas já" às "Indiretas sempre", um passo à frente, dois atrás.

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Considerando que, quem fala Estado fala política, esta sob a hegemonia do neoliberalismo foi também minimizada e criminalizada. Basta lembrar o argumento de Fernando Henrique Cardoso para reprimir a greve dos petroleiros no primeiro mandato: "Trata-se de um movimento... político". Pior, contrário à intenção tucana de privatização da Petrobrás. Dê-lhe tanques.

Analiticamente, para o príncipe do Consenso de Washington, os petroleiros cometiam então três delitos: a) manifestavam-se fora do Congresso Nacional, único espaço para a prática política tida por legítima; b) intervinham como um corpo coletivo organizado, quando apenas a desobediência civil de indivíduos avulsos era admitida; c) defendiam o patrimônio público construído por várias gerações, numa época em que moderno significava entreguismo. A repressão manu militari sobre os trabalhadores mobilizados marcou o início de um retrocesso civilizacional de resultados perversos para o povo brasileiro.

FHC, no caso, agiu de acordo com uma antiga aspiração das elites, eliminar a política das ruas e, no limite, esconjurá-la para longe do próprio Estado. Não à toa, Platão propunha para os postos hierárquicos de mando na sociedade os "filósofos". Saint-Simon, os "industriais". John Galbraith, os "tecnocratas". Hoje fala-se nos "gestores", na tentativa ainda de elidir a dinâmica objetiva da luta de classes e despolitizar a vontade subjetiva dos governantes. No fundo, essa visão gerencial sobre o exercício do poder central reflete a autonomização, mais imaginária que real, das políticas públicas no que concerne às questões estruturais e ao conteúdo de cada projeto político-ideológico. Como se as políticas públicas não tivessem governo.

Compreende-se assim que um dos cinquenta executivos de destaque entre os países emergentes, conforme a tabela de celebridades do Financial Times, tenha descrito Dilma Rousseff como "uma gestora pública, tecnocrata de boa formação, de bom senso e experiente, o que será muito bom para o Brasil" (Zero Hora, 12/12/2010). A completa assepsia política da descrição traduz o desejo atávico das classes dominantes, desde a remota Antiguidade.

Do triunfalismo à surpresa

Francis Fukuyama, em 1989, com espalhafatosa cobertura midiática, anunciou o fim da história e fixou um programa máximo (sic) para o Ocidente: a economia de mercado e a democracia representativa. Inaugurava a ideologia imperialista da Nova Ordem Mundial. A senha para um padrão implacável de relações econômicas, que não aceitavam discussão e cobravam obediência imediata sob ameaça de expulsar os atores da cena e aprisioná-los em uma dependência abjeta, como se fossem escravos de novo, denunciou o geógrafo Milton Santos com o neologismo "globalitarismo", para realçar o viés totalitário da globalização neoliberal.

A utopia socialista que movia a rebeldia era condenada a um passado jurássico, junto com os ideais da cidadania ativa. O capital, triunfante, decretava a paz perene. Como no verso de T. S. Eliot, "sonhando com sistemas tão perfeitos em que o bem seja de todo dispensável". Doce ilusão. O Zapatismo, que veio à luz no emblemático dia em que entrava em vigor a North American Free Trade Agreement (Nafta), o tratado de livre comércio dos Estados Unidos com o Canadá e o México, em 1° de janeiro de 1994, mostrou que a recusa à exploração e à opressão mantinha-se acesa sob as cinzas. Em paralelo, a experiência do Orçamento Participativo nos anos 90 revelou que a socialização da política é o melhor antídoto à apatia das camadas empobrecidas, à corrupção e às demasias burocráticas da administração pública.

Em uma conjuntura nacional e internacional repleta de adversidades, a criatividade e a irresignação estiveram localizadas no eixo da resistência que ligou Chiapas a Porto Alegre simbolicamente. Esses centros laboratoriais acuaram o medo e fizeram ressurgir a esperança. Os pobres tornavam a ser cidadãos. A dominação capitalista não afigurava-se como uma fatalidade ou um destino, "surpreendendo aqueles que não acreditavam mais na possibilidade de mudanças sociais e que haviam abandonado a história", enfatizou a socióloga Laura Tavares Soares (Os custos sociais do ajuste neoliberal na América Latina, SP, Ed. Cortez, 2000).

A dialética corcoveava, rejuvenescida na linguagem sem esquematismos do subcomandante Marcos e nas assembléias comunitárias do prefeito Olívio Dutra. Preparava-se o terreno para o I Fórum Social Mundial. Movimentos tradicionais (com vetor no trabalho) somavam-se aos contemporâneos (feministas, ecológicos, contra a fome, etc.) para questionar a gramática da exclusão, reatualizar o valor da solidariedade e devolver a dignidade à política. As promessas do paraíso reaganista, calcadas no fetichismo da mercadoria, esfumavam-se. As bandeiras vermelhas regressavam às praças. Mas havia pedras no caminho. E a "imprensalão" tencionou à procura de desvios, fabricando uns tantos com sensacionalismo e ódio de classe. Assustados e incapazes de uma leitura correta sobre os acontecimentos, os setores médios afastaram-se da estrela guia.

A militância petista não se intimidou, porém, e a caravana popular seguiu avante, comunicando-se em portunhol. Ao lado, os cães ladravam e ensaiavam o frustrado impeachment do presidente Lula. O Estado reassumia, aos poucos, suas funções clássicas para atender as demandas da população, e um papel regulatório na economia para alavancar o desenvolvimento sustentado e combater as desigualdades sociais e regionais. "Estado", "política", "história" foram palavras recontextualizadas graças à ascensão das forças antineoliberais na AL.

Céu com nuvens carregadas

Vislumbram-se outras batalhas no horizonte. A direita articulada em torno do Tea Party, o nó górdio do Partido Republicano dos EUA, em um ambiente recessivo e agravado com o corte nos gastos sociais, redobra a disposição conservadora de organizar o conjunto das relações sociais pela premissa da mercantilização de tudo e todos, com um script que mescla individualismo e belicismo. Se o roteiro causa a sensação de um déjà vué porque o novíssimo ideário direitista reconduz o mundo ao caos societal, isto é, à condição natural hobbesiana que faz do homem lobo do homem. A barbárie continua pedindo passagem para romper o contrato social de proteção aos direitos e espalhar a miséria e o sofrimento. Fuck you!

A postura intransigente do Tea Party aponta para uma posição de confronto com as nações que, soberanas, buscam superar o status quo. Sem que se possa esperar um freio à sede de sangue da ultradireita (vide post de Emir Sader: Obama e Lula, 09/12/2010) e nem consideração com o princípio elementar da liberdade de expressão (vide a perseguição, esta de fato terrorista, ao portal do Wikileaks). Perigos e dilemas rondam o futuro. O Norte direitiza-se com extremismo; o Sul esquerdiza-se, embora com moderação e respeito à institucionalidade. É possível antecipar tensões e retaliações, com o alargamento da crise, do desemprego e da anomia social no território estadunidense. O Irã que se cuide.

Enquanto isso, o Brasil avança, reduz a pobreza, projeta um Estado de bem-estar social. Diante das inusitadas conquistas, referendadas com a vitória de Dilma, Lula utiliza o bordão "como nunca antes..." para chamar a atenção sobre o que está em curso no país. Tem nome, "Revolução Democrática". Rafael Correa, o presidente do Equador, refere-se à "Revolução Cidadã". Hugo Chávez, o presidente da Venezuela, à "Revolução Bolivariana", em homenagem ao lendário libertador Simon Bolívar. Evo Morales, o presidente da Bolívia, à "Revolução Democrática e Cultural" como uma ponte para o "Neo-socialismo".

O denominador comum é a idéia de "revolução", mais um mote maldito esquecido no porão que sacode a poeira e dá a volta por cima. Nenhuma alusão à luta armada, mas sim à elevação do nível de consciência das maiorias, ao empoderamento dos movimentos sociais, aos vínculos orgânicos desses com os partidos políticos comprometidos com as mudanças e aos progressos institucionais para aprofundar a democracia e a justiça social. "Não façam o que eu fiz", aconselhou Fidel Castro em reunião com um grupo de líderes reformadores sobre a questão do método (Che Guevara, 80Th Anniversary, Trilogy Collection, DVD).

"Estado", "política", "história", "revolução" são as ferramentas da esquerda latino-americana para atacar as consequências e as causas do capitalismo, promovendo ao mesmo tempo a integração do Continente em termos políticos, econômicos, sociais e culturais. A estratégia pode ser condensada na fórmula do pensador judaico-romeno Lucien Goldmann: "reformismo revolucionário". Paradoxal, só na aparência, como o realismo mágico de nossa literatura. La nave va.


* Luiz Marques é professor de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRG)

**Texto originalmente publicado no
Adital

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ANÁLISE Aumento nos transportes gera forte pressão inflacionária

MAURO ZAFALON
COLUNISTA DA FOLHA

O gasto com transporte público é um dos itens de grande peso no bolso dos consumidores. Qualquer mudança no valor da passagem provoca não só gasto maior para os usuários como forte pressão sobre a inflação.
É o que deverá ocorrer com a nova tarifa de ônibus urbano determinada pela prefeitura paulistana.
Os índices de inflação colocam todos os gastos dos consumidores em uma só cesta e definem um peso específico para cada um deles.
Essa cesta leva em consideração as necessidades diárias da população inserida na faixa de renda pesquisada pelos institutos de inflação.
O peso da passagem de ônibus é grande. De cada R$ 100 que os paulistanos gastam mensalmente, R$ 4,40 são destinados ao pagamento de tarifas de ônibus, conforme dados da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas).
A Fipe, ligada à USP, mede a inflação apenas no município de São Paulo.
Já o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), do IBGE -índice que apura a inflação oficial no país-, determina que, de cada R$ 100 desembolsados pelos brasileiros, R$ 3,84 são gastos com ônibus urbanos.
Esse gasto elevado se reflete nas taxas de inflação. Considerando só a variação percentual de 11,11% no reajuste das tarifas de ônibus (de R$ 2,70 para R$ 3), o IPC da Fipe vai registrar inflação de 0,47 ponto percentual em 30 dias.
Ou seja, se mais nada subir nos 30 dias após esse reajuste, a inflação será de 0,47% apenas por conta do aumento da passagem de ônibus.
Já a pressão no IPCA do aumento em São Paulo (que computa preços também em outras cidades) será de 0,14 ponto percentual.
Para ter uma ideia de como é grande o peso das tarifas de ônibus na inflação, todos os 465 itens pesquisados mensalmente pela Fipe vêm gerando taxa média mensal de 0,50%.
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Verba de subsídio é queimada, diz engenheiro

DE SÃO PAULO

O valor gasto pela prefeitura em subsídios às empresas de ônibus poderia ser direcionado para a construção de mais corredores de ônibus, segundo o engenheiro Sergio Ejzenberg, mestre em transportes pela Escola Politécnica da USP. Há dez corredores na cidade, com 121 km.



Folha - Como avalia o reajuste das tarifa de ônibus?
Sergio Ejzenberg -
A tarifa não será de R$ 3. É muito maior, por causa do subsídio anual bilionário às empresas. Se a lógica indica que onde há mais passageiros, o custo diminui, por que os ônibus andam lotados e a nossa tarifa é cara? Primeiro, os ônibus não andam, porque não têm privilégio nas vias -como há poucos corredores, a velocidade é lenta.

O que deveria ser feito?
O dinheiro do subsídio é queimado. Se fosse investido em corredor, não precisaria ser gasto. Em vez de investir para aumentar a velocidade dos ônibus, a prefeitura faz obras inúteis, como viadutos e pontes. O gigantismo da cidade também afeta a tarifa, por conta de percursos longos e congestionamentos.

Além dos corredores, qual a solução?
O que precisamos é de metrô, com capacidade maior.

A tarifa maior pode inibir o uso do ônibus?
Os usuários podem ficar tentados a comprar a sua motocicleta: hoje com R$ 250 já se paga a prestação da moto, com vantagem de economizar tempo e ganhar produtividade e qualidade de vida. Mas a poluição e o risco de acidentes aumentam.
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Absurdo do: Kassab sobe tarifa de ônibus para R$ 3

Folha 23/12/10
Aumento representa quase o dobro da inflação na cidade medida pela Fipe, de 6,03% desde o último reajuste


SP terá a tarifa mais cara do país; passagem de metrô só deve subir em fevereiro, e deve continuar mais barata

Carlos Cecconello/Folhapress

Passageiros aguardam em ponto de ônibus na av. Nove de Julho, centro de SP, a poucos dias do aumento da passagem

EVANDRO SPINELLI
RICARDO GALLO
DE SÃO PAULO

A tarifa de ônibus em São Paulo subirá quase o dobro da inflação em 5 de janeiro.
O prefeito Gilberto Kassab (DEM) autorizou ontem o aumento da passagem de R$ 2,70 para R$ 3, alta de 11,11%.
Será tarifa mais cara do país entre as cidades com mais de 500 mil habitantes. Até novembro, o posto era dividido com Osasco, que reajustou a sua tarifa no início deste mês para R$ 2,90.
A tarifa integrada (ônibus + metrô/trem) passa de R$ 4,07 para R$ 4,29.
A prefeitura diz que o reajuste é baseado na projeção de despesas no sistema para o ano. Cerca de 2.000 dos quase 15 mil carros da frota serão substituídos.
Apesar desse gasto extra, o preço do litro do diesel se manteve em R$ 2 e os salários de motoristas e cobradores aumentou 6,5%.
A inflação na cidade, medida pelo IPC-Fipe, foi de 6,03% desde o último reajuste, em janeiro deste ano.
Desde julho de 1994, a passagem de ônibus já subiu 500%, ante inflação de 231%.

METRÔ MAIS BARATO
O metrô já é, desde o início de 2009, mais barato que o ônibus. Na ocasião, Kassab autorizou o aumento dos ônibus de R$ 2,30 para R$ 2,70 -o sistema sobre trilhos, por sua vez, subiu para R$ 2,65.
Especialistas apontam que essa diferença incentiva o uso do metrô. O novo reajuste da tarifa do sistema sobre trilhos deve sair em fevereiro, mas a Folha apurou que o grupo de transição do governador eleito Geraldo Alckmin (PSDB) já definiu que o bilhete não chegará a R$ 3.
Ou seja, a defasagem das tarifas de ônibus e metrô, hoje em R$ 0,05, pode até subir.
Mesmo com o aumento de 11,11% nas tarifas, a gestão Kassab aumentará os subsídios às empresas de ônibus.
Neste ano, as empresas receberam R$ 600 milhões. Para o ano que vem, o Orçamento prevê R$ 743 milhões.
O vereador Milton Leite (DEM), relator do Orçamento, disse o valor de subsídio para 2011 foi um pedido do secretário-adjunto de Transportes, Pedro Machado.
"A prefeitura mandou R$ 600 milhões, mas o Pedro Luiz pediu para aumentar. Com esse valor. ele disse que a tarifa podia ser de R$ 3. Se fosse ver pelo custo do sistema, a tarifa teria de ser de R$ 3,20 ou R$ 3,30", afirmou.
O vereador Antonio Donato (PT) classificou o reajuste de "assustador". "Acho que eles querem fazer caixa até a eleição à custa do bolso do trabalhador. Acho que não vai ter outro reajuste neste governo", disse o petista.
Ele quer pedir uma auditoria nas planilhas de custo do sistema para verificar se o cálculo da tarifa está correto.
A União Estadual dos Estudantes de SP também atacou o aumento e planeja um protesto em janeiro.
"Os ônibus são superlotados, sem conforto, atrasam bastante. Comparado ao benefício que oferece, o reajuste é inaceitável", diz Carlos Eduardo Siqueira, 26, presidente da entidade.
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Final de ano deve ter descanso e estudo

Folha 23/12/10

Dividir o tempo entre a folga e os livros é a indicação dos psicólogos a quem não encerrou maratona do vestibular

DE SÃO PAULO

Bruno de Souza, 21, tenta uma vaga em história na USP e, por isso, enfrenta em janeiro a 2ª fase da Fuvest. Os poucos dias que ele tem de folga até lá -as provas vão de 9 a 11 de janeiro- serão aproveitados jogando capoeira, duas vezes por semana.
"É bom para relaxar, ajudar a diminuir a pressão do vestibular", diz ele.
Mariana Favoretto, 19, que tenta medicina na Fuvest, tem a mesma opinião: "Tem que fazer algo para esquecer os livros um pouquinho".
Só um pouquinho mesmo, já que ela não vai abandonar totalmente os estudos, mesmo passando o fim de ano na praia. "Vou estudar umas duas horas [por dia]. E tocar um pouco de violão, algo de que gosto muito."
Dividir o tempo entre estudo e descanso é uma das indicações que psicólogos dão a quem ainda não encerrou a maratona de vestibulares.
"Mas não tem muita regra, depende do ritmo de cada estudante. Se ele acha que pode parar totalmente, então para. O que não pode é ficar em cima do muro", diz a psicóloga Rosane Levenfus.
Célio Tasinafo, professor do Cursinho do Estudante, de Campinas, recomenda que seus alunos descansem até o Ano-Novo.
"É importante aproveitar as festas, descansar e não ficar longe da família. Depois desse período, até as provas, também não vale estudar de forma estafante."
Para quem não consegue esquecer o vestibular, mas não quer se enfiar nos livros neste período, o Fovest dá algumas sugestões de passeios e outras atividades mais leves que podem ajudar a fazer uma boa prova. Veja as dicas na página 6.
(ANDRESSA TAFFAREL)
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Bandeira negra de paz

Antes mesmo da deflagração dos conflitos entre policiais, bandidos e policiais bandidos no Rio de Janeiro no final do mês de novembro, a implantação das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) já havia atraído minha atenção. Por um aspecto pitoresco, quase marginal: nas “comunidades” – eufemismo para aplacar o estigma que pesa sobre a palavra “favela” – então “pacificadas”, para simbolizar sua retirada do domínio ilegal e a paz que, se esperava, reinaria ali, eram hasteadas duas bandeiras: uma do Brasil, e, a outra... Não uma bandeira branca, emblema universal da paz, mas uma bandeira negra do BOPE (Batalhão de Operações Especiais, a “tropa de elite” da polícia carioca), em cujo centro encontra-se o famigerado distintivo, a “faca na caveira”.


Policiais do Bope hastearam bandeiras do Bope e do Brasil no alto do Morro do Andaraí .Foto: Alessandro Costa /Agência O Dia. Jornal "O Dia", 12/06/10.


Fiquei a me perguntar: como promover uma cultura de paz nas favelas exaltando-se um signo de morte e da guerra? Não sou dessas que atacam previamente qualquer operação da polícia, ou que defendem puerilmente a sua extinção: a polícia é uma instituição necessária para coibir crimes e garantir o respeito às leis, muito embora, atualmente, seja forçoso retirá-la do interior da rede do crime, na qual está inextricavelmente envolvida. Trata-se, portanto, de aprimorar seu funcionamento, fazendo-o enquadrar-se na lei e torná-la uma parte da resolução – e não do problema – da segurança pública. Um território dominado pelo crime, seja de origem policial, civil, ou "de capital misto" constitui-se em uma afronta aos pilares constitutivos do Estado: o controle por sobre seus territórios e o monopólio do uso da violência.

Para que haja uma sociedade pacificada, é essencial que o Estado seja capaz de assegurar estas suas prerrogativas, e não, pelo contrário, que haja a ausência de quaisquer tipo de agências de vigilância e repressão, e a violência “democratize-se” pela sociedade, às margens do controle estatal. Neste sentido as operações no Rio são louváveis, à exceção dos abusos e falhas de praxe. E também o são em outro aspecto: a baixa letalidade dos confrontos, demonstrando que há uma orientação diversa de política de segurança daquela que prega que “bandido bom é bandido morto”. Apenas a título de comparação, que foi bastante evocada, com a série de ataques do PCC em São Paulo no ano de 2006, o saldo da operação no Rio foi, de acordo com informações do Globo em 29/11 (http://oglobo.globo.com/rio/mat/2010/11/29/balanco-geral-das-operacoes-no-rio-de-janeiro-123-presos-37-mortos-em-uma-semana-923144693.asp), de 37 mortes, contra 493 nos "confrontos" paulistas (http://www.estadao.com.br/noticias/geral,mortes-durante-ataques-do-pcc-em-2006-sao%20arquivadas,370134,0.htm). Inequivocamente, um avanço, que denota uma mudança de orientação e uma crescente conscientização de que o papel da polícia é prender, o da justiça é condenar ou absolver, e que não cabe à autoridade policial o papel de executora sumária de supostos criminosos.

Entretanto, é preciso atentar para um aspecto pernicioso que a cobertura deste episódio está contribuindo para consolidar: a glorificação e exaltação da guerra e da figura justiceira dos policiais do BOPE e das Forças Armadas. Sem dúvida, é importante que a população valorize e confie em suas forças de segurança, mas isso é algo diferente de criar em torno delas uma mística de heroísmo e tolerância com a violência praticada (desde que contra “criminosos”). Impulsionada pelo fenômeno “Tropa de Elite” e pelas recentes incursões no Rio, a cabeça de muitas pessoas vem sendo militarizada e tomada pelo êxtase maniqueísta do “bem vencendo o mal”, da polícia contra o bandido, algo que contribui muito mais para a disseminação de um ethos guerreiro e exterminador do que para uma cultura de paz e respeito aos direitos humanos. Isso não deve significar frouxidão contra o crime, mas sim que o combate se trave dentro dos limites da lei e com o mínimo de violência possível.

Mas não é isso o que vemos no pensamento do homem comum: o “cidadão de bem” defende que a polícia aja com o máximo de força e truculência possível, e, neste contexto, cria-se um clima de legitimação, e até mesmo clamor, pela ação policial agressiva. Caso a polícia não esteja preparada para resistir a esse assédio e sinal verde à violência contra os cidadãos – como não está – ela ganha mais argumentos para justificar sua brutalidade, camuflando-a de “anseio da sociedade”. Os meninos, que antes canalizavam sua admiração pela figura imponente do traficante tenderão não a valorizar as soluções dialogadas, institucionais e não-violentas, mas sim as armas e uniformes de uma polícia violenta, e cuja violência, pior ainda, venha a ser considerada legítima, positiva e motivo de orgulho. Trocam-se os personagens, permanecem os papéis: ao invés da violência dos descamisados traficantes, a violência dos “homens de preto”...

Para não fazer afirmações sem embasamento, transcrevo abaixo alguns dos gritos de guerra entoados pelos soldados do BOPE durante seu período de treinamento. Como tais cânticos e ideologia se coadunam com a criação de uma cultura de paz?

"Homem de preto,
qual é a sua missão?
É invadir favela
é deixar corpo no chão."
"Você sabe quem eu sou?
Sou o maldito cão de guerra.
Sou treinado para matar,
mesmo que custe minha vida,
a missão será cumprida,
seja ela onde for
-espalhando a violência, a morte e o terror."



"Sou aquele combatente,
que tem o rosto mascarado,
uma tarja negra e amarela,
que ostento em meus braços
me faz ser incomum:
um mensageiro da morte.
Posso provar que sou um forte,
isso se você viver.
Eu sou... herói da nação."

"Alegria, alegria
sinto no meu coração,
pois já raiou um novo dia,
já vou cumprir minha missão.
Vou me infiltrar numa favela
com meu fuzul na mão,

vou combater o inimigo,
provocar destruição."

"Se perguntas de onde venho
e qual é minha missão:
trago a morte e o desespero,
e a total destruição."
"Sangue frio em minha veias,
congelou meu coração,
nós não temos sentimentos,
nem tampouco compaixão,
nós amamos os cursados
e odiamos pés-de-cão*."

"Comandos, comandos,
e o que mais vocês são?
Somos apenas
malditos cães de guerra,
somos apenas
selvagens cães de guerra."


* Cursados são os membros do BOPE, pés-de-cão são os policiais militares convencionais. Extraído do livro Elite da tropa, de Luiz Eduardo Soares, André Batista e Rodrigo Pimentel. Disponível no endereço: http://despertandovozes.blogspot.com/2006/05/elite-da-tropa.html
"Homens de Preto, qual é sua missão?
Entrar pela favela e deixar corpos no chão!
Homens de Preto, que é que você faz?
Eu faço coisas que assusta o Satanás!


Bope vai te pegar! (Pega daqui, pega de lá)
Bope vai te pegar! (Pega daqui, pega de lá)


Cachorro latindo,
criança chorando,
vagabundo vazando!
É o Bope chegando!


Cachorro latindo,
criança chorando,
vagabundo vazando!
É o Bope chegando!
É o Bope matando!


Bope vai te pegar! (Pega daqui, pega de lá)
Bope vai te pegar! (Pega daqui, pega de lá)


Tropa de Elite osso duro de roer!
Pega um, pega geral,
também vai pegar você!


Tropa de Elite osso duro de roer!
Pega um, pega geral,
também vai pegar você!

Bate com o pé,
bate com a mão,
bate com o pau,
o bope é mau, quebra geral.

Cachorro latindo,
criança chorando,
vagabundo vazando!
É o Bope chegando!"


Retirado de matéria do site G1. Disponível em: http://g1.globo.com/Noticias/Rio/0,,MUL394467-5606,00-BOPE+APROVA+TREINO+ANTISEQUESTRO+COM+ARMAS+NAOLETAIS.html#letra

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