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Bandeira negra de paz

Antes mesmo da deflagração dos conflitos entre policiais, bandidos e policiais bandidos no Rio de Janeiro no final do mês de novembro, a implantação das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) já havia atraído minha atenção. Por um aspecto pitoresco, quase marginal: nas “comunidades” – eufemismo para aplacar o estigma que pesa sobre a palavra “favela” – então “pacificadas”, para simbolizar sua retirada do domínio ilegal e a paz que, se esperava, reinaria ali, eram hasteadas duas bandeiras: uma do Brasil, e, a outra... Não uma bandeira branca, emblema universal da paz, mas uma bandeira negra do BOPE (Batalhão de Operações Especiais, a “tropa de elite” da polícia carioca), em cujo centro encontra-se o famigerado distintivo, a “faca na caveira”.


Policiais do Bope hastearam bandeiras do Bope e do Brasil no alto do Morro do Andaraí .Foto: Alessandro Costa /Agência O Dia. Jornal "O Dia", 12/06/10.


Fiquei a me perguntar: como promover uma cultura de paz nas favelas exaltando-se um signo de morte e da guerra? Não sou dessas que atacam previamente qualquer operação da polícia, ou que defendem puerilmente a sua extinção: a polícia é uma instituição necessária para coibir crimes e garantir o respeito às leis, muito embora, atualmente, seja forçoso retirá-la do interior da rede do crime, na qual está inextricavelmente envolvida. Trata-se, portanto, de aprimorar seu funcionamento, fazendo-o enquadrar-se na lei e torná-la uma parte da resolução – e não do problema – da segurança pública. Um território dominado pelo crime, seja de origem policial, civil, ou "de capital misto" constitui-se em uma afronta aos pilares constitutivos do Estado: o controle por sobre seus territórios e o monopólio do uso da violência.

Para que haja uma sociedade pacificada, é essencial que o Estado seja capaz de assegurar estas suas prerrogativas, e não, pelo contrário, que haja a ausência de quaisquer tipo de agências de vigilância e repressão, e a violência “democratize-se” pela sociedade, às margens do controle estatal. Neste sentido as operações no Rio são louváveis, à exceção dos abusos e falhas de praxe. E também o são em outro aspecto: a baixa letalidade dos confrontos, demonstrando que há uma orientação diversa de política de segurança daquela que prega que “bandido bom é bandido morto”. Apenas a título de comparação, que foi bastante evocada, com a série de ataques do PCC em São Paulo no ano de 2006, o saldo da operação no Rio foi, de acordo com informações do Globo em 29/11 (http://oglobo.globo.com/rio/mat/2010/11/29/balanco-geral-das-operacoes-no-rio-de-janeiro-123-presos-37-mortos-em-uma-semana-923144693.asp), de 37 mortes, contra 493 nos "confrontos" paulistas (http://www.estadao.com.br/noticias/geral,mortes-durante-ataques-do-pcc-em-2006-sao%20arquivadas,370134,0.htm). Inequivocamente, um avanço, que denota uma mudança de orientação e uma crescente conscientização de que o papel da polícia é prender, o da justiça é condenar ou absolver, e que não cabe à autoridade policial o papel de executora sumária de supostos criminosos.

Entretanto, é preciso atentar para um aspecto pernicioso que a cobertura deste episódio está contribuindo para consolidar: a glorificação e exaltação da guerra e da figura justiceira dos policiais do BOPE e das Forças Armadas. Sem dúvida, é importante que a população valorize e confie em suas forças de segurança, mas isso é algo diferente de criar em torno delas uma mística de heroísmo e tolerância com a violência praticada (desde que contra “criminosos”). Impulsionada pelo fenômeno “Tropa de Elite” e pelas recentes incursões no Rio, a cabeça de muitas pessoas vem sendo militarizada e tomada pelo êxtase maniqueísta do “bem vencendo o mal”, da polícia contra o bandido, algo que contribui muito mais para a disseminação de um ethos guerreiro e exterminador do que para uma cultura de paz e respeito aos direitos humanos. Isso não deve significar frouxidão contra o crime, mas sim que o combate se trave dentro dos limites da lei e com o mínimo de violência possível.

Mas não é isso o que vemos no pensamento do homem comum: o “cidadão de bem” defende que a polícia aja com o máximo de força e truculência possível, e, neste contexto, cria-se um clima de legitimação, e até mesmo clamor, pela ação policial agressiva. Caso a polícia não esteja preparada para resistir a esse assédio e sinal verde à violência contra os cidadãos – como não está – ela ganha mais argumentos para justificar sua brutalidade, camuflando-a de “anseio da sociedade”. Os meninos, que antes canalizavam sua admiração pela figura imponente do traficante tenderão não a valorizar as soluções dialogadas, institucionais e não-violentas, mas sim as armas e uniformes de uma polícia violenta, e cuja violência, pior ainda, venha a ser considerada legítima, positiva e motivo de orgulho. Trocam-se os personagens, permanecem os papéis: ao invés da violência dos descamisados traficantes, a violência dos “homens de preto”...

Para não fazer afirmações sem embasamento, transcrevo abaixo alguns dos gritos de guerra entoados pelos soldados do BOPE durante seu período de treinamento. Como tais cânticos e ideologia se coadunam com a criação de uma cultura de paz?

"Homem de preto,
qual é a sua missão?
É invadir favela
é deixar corpo no chão."
"Você sabe quem eu sou?
Sou o maldito cão de guerra.
Sou treinado para matar,
mesmo que custe minha vida,
a missão será cumprida,
seja ela onde for
-espalhando a violência, a morte e o terror."



"Sou aquele combatente,
que tem o rosto mascarado,
uma tarja negra e amarela,
que ostento em meus braços
me faz ser incomum:
um mensageiro da morte.
Posso provar que sou um forte,
isso se você viver.
Eu sou... herói da nação."

"Alegria, alegria
sinto no meu coração,
pois já raiou um novo dia,
já vou cumprir minha missão.
Vou me infiltrar numa favela
com meu fuzul na mão,

vou combater o inimigo,
provocar destruição."

"Se perguntas de onde venho
e qual é minha missão:
trago a morte e o desespero,
e a total destruição."
"Sangue frio em minha veias,
congelou meu coração,
nós não temos sentimentos,
nem tampouco compaixão,
nós amamos os cursados
e odiamos pés-de-cão*."

"Comandos, comandos,
e o que mais vocês são?
Somos apenas
malditos cães de guerra,
somos apenas
selvagens cães de guerra."


* Cursados são os membros do BOPE, pés-de-cão são os policiais militares convencionais. Extraído do livro Elite da tropa, de Luiz Eduardo Soares, André Batista e Rodrigo Pimentel. Disponível no endereço: http://despertandovozes.blogspot.com/2006/05/elite-da-tropa.html
"Homens de Preto, qual é sua missão?
Entrar pela favela e deixar corpos no chão!
Homens de Preto, que é que você faz?
Eu faço coisas que assusta o Satanás!


Bope vai te pegar! (Pega daqui, pega de lá)
Bope vai te pegar! (Pega daqui, pega de lá)


Cachorro latindo,
criança chorando,
vagabundo vazando!
É o Bope chegando!


Cachorro latindo,
criança chorando,
vagabundo vazando!
É o Bope chegando!
É o Bope matando!


Bope vai te pegar! (Pega daqui, pega de lá)
Bope vai te pegar! (Pega daqui, pega de lá)


Tropa de Elite osso duro de roer!
Pega um, pega geral,
também vai pegar você!


Tropa de Elite osso duro de roer!
Pega um, pega geral,
também vai pegar você!

Bate com o pé,
bate com a mão,
bate com o pau,
o bope é mau, quebra geral.

Cachorro latindo,
criança chorando,
vagabundo vazando!
É o Bope chegando!"


Retirado de matéria do site G1. Disponível em: http://g1.globo.com/Noticias/Rio/0,,MUL394467-5606,00-BOPE+APROVA+TREINO+ANTISEQUESTRO+COM+ARMAS+NAOLETAIS.html#letra

2 comentários:

Fábio C. disse...

Oi Gisele tudo bem?Só um comentário, como as tags neste blog servem de referencia temática na divisão do conteudo se vc concordar, coloque apenas aquelas referencias temáticas em que o texto se enquadra. Como se fosse um guia temático para o leitor que está na parte mais inicial da pagina para selecionar os interesses.
Assim o blog fica mais facil de mexer e a pagina inicial mais limpa.
Um abraço,
Fábio

Gisele Lopes disse...

Certo, eu não havia notado... É pq no meu blog pessoal não é assim. Valeu pelo toque. Bjo!

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