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Sobre alpinistas em montanhas de luxo e morros de risco - responsabilidade pessoal e consciência do perigo


Neste início de ano, ouvindo a uma rádio de notícias, duas reportagens sem conexão alguma, mas tocadas na sequência, me pareceram extremamente encadeadas, pelo paradoxo que saltou subliminarmente aos meus ouvidos: o desaparecimento do alpinista brasileiro Bernardo Collares, em uma montanha da Patagônia, e as inundações em áreas urbanas na região sudeste. No primeiro caso, o atleta escalava o monte Fitz Roy, que, ao que consta, é “considerado por muitos alpinistas profissionais como o maior de todos os desafios do seu esporte, porque suas paredes verticais requerem técnica impecável para serem conquistadas. Ademais, o clima da região é excepcionalmente ruim e traiçoeiro — fato que já custou a muitos suas vidas.” (http://pt.wikipedia.org/wiki/Cerro_Fitzroy). Sua família cobrou veementemente do governo brasileiro, e criticou as autoridades argentinas, pelo não-resgate do corpo do alpinista, que, machucado e em condições climáticas tão adversas, não teria chances de ser encontrado vivo. A carta aberta de Katia Arantes ao Itamaraty, foi reproduzida no blog de Fernando Gabeira, em que ela critica a falta de investimento dos governos argentino e chileno, afirmando que ambos “fingem que é natural os montanhistas serem abandonados a própria sorte, fazendo das montanhas da Patagônia um túmulo inacessível onde os familiares não podem chorar os seus mortos. A desculpa deles é que os montanhistas não avisaram aos órgãos publicos locais que iriam subir a montanha. Essa burocracia é apenas para ajudá-los a lavar as mãos em casos fatais de estrangeiros.” (http://blogs.estadao.com.br/fernando-gabeira/2011/01/08/apelo-por-montanhista/)
O segundo caso, que não deixou o noticiário por ser uma tragédia cujos desdobramentos ainda encontram-se em curso, é um roteiro que se repete todos os anos, e que, de tão previsível, poderia ser incluído no calendário de verão: os deslizamentos de moradias situadas em áreas de risco, inundações de cidades, perdas humanas e materiais. As chuvas, somadas à falta de planejamento urbano, descaso de autoridades e efeitos de mudanças climáticas produziram alagamentos e prejuízos em regiões de São Paulo, Minas Gerais, e, de forma mais dramática, na serra do Rio de Janeiro (este último, está sendo considerado por alguns como o maior desastre natural da história do Brasil.) Mas seria de extrema ingenuidade ou evasão considerar estas catástrofes como apenas “naturais”, por diversas razões: a ocupação de encostas de morros e demais áreas de risco se dá pela impossibilidade de a população de baixa renda adquirir imóveis em outras regiões, cujo preço, nas grandes cidades, é inflacionado pela especulação imobiliária; pela ação de políticos e lideres comunitários demagogos, que incentivam ocupações em terrenos impróprios, para fazer dali um curral eleitoral, e que, em momentos como esse, desaparecem como se não lhes coubesse nenhuma responsabilidade; pela inépcia do poder público em impedir essas construções quando estão no início, e ainda as incentivarem, indiretamente, fornecendo serviços de abastecimento de água, energia elétrica e asfalto a essas regiões, legitimando sua existência no local. Considerando todos esses fatores, fica difícil interpretar essas tragédias como catástrofes naturais – são, pelo contrário, desastres sociais. O único fator “natural”, nesse caso, seriam as mudanças climáticas que estão aumentando a intensidade pluviométrica na região sudeste do Brasil, como nos informa o jornalista André Trigueiro, especializado em meio ambiente (http://cbn.globoradio.globo.com/comentaristas/andre-trigueiro/2011/01/15/MUDANCAS-CLIMATICAS-DEIXAM-CHUVAS-CADA-VEZ-MAIS-SEVERAS.htm). O que não deixa de ser, também, fruto da ação humana.

O ponto que eu gostaria de abordar, e que conecta as duas notícias, é a questão da noção do perigo por parte dos indivíduos envolvidos, e as responsabilidades pessoal e do poder público diante do risco que cada uma dessas pessoas, nas diferentes situações, assume. No caso do montanhista desaparecido, parece conveniente a seus parentes, algumas personalidades e “anônimos” internet a fora apontar a responsabilidade ao governo brasileiro, através do Itamaraty, e dos governos da Argentina e Chile por não resgatar o corpo de Bernardo. Embora seja compreensível a dor da família, que em seu desespero tanta de todas as formas encontrar um ente querido, ainda que morto, cabe a nós questionar: é dever do Estado brasileiro zelar pela segurança e integridade física de um cidadão que, privadamente, decide escalar uma montanha perigosa em um país estrangeiro? Caso o sujeito em questão não estivesse em missão oficial – como não estava – praticando um esporte por livre e espontânea vontade, em busca de prazer e realização pessoal e ciente do perigo, qual a relação das autoridades com esta ocorrência? A meu ver, nenhuma. Um problema particular.

Completamente oposta é a situação dos pobres urbanos que vivem em situação de risco, cujas vidas são responsabilidade do poder público. Entretanto, esta opinião está longe de ser unânime, apesar do relativo amadurecimento da imprensa ao tratar desta questão, pois já não se vê, como antes, âncoras e repórteres culpando a população por morar em lugares perigosos e insalubres. Mas não é esta a visão do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, que, de acordo com reportagem do portal G1 declarou que os moradores de áreas de risco têm consciência da situação do lugar e por isso devem tratar de se mudar (http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2011/01/para-kassab-morador-de-area-de-risco-sabe-do-perigo-e-deve-se-mudar.html). Para o prefeito, o problema de habitação na cidade é privado, e cabe às unidades familiares resolvê-lo e responsabilizarem-se individualmente por sua sorte ao ocuparem tais áreas. Kassab lava suas mãos diante de um problema de planejamento urbano, que é de responsabilidade das autoridades municipais desde a fiscalização de regiões de preservação e risco de deslizamento – impedindo a construção de imóveis ali, desde seus primeiros tijolos – até a situação da especulação imobiliária e predial da cidade.

Segundo dados do Grupo Estado, de dezembro de 2008, havia na cidade de São Paulo 400 mil imóveis desocupados, para um défcit habitacional de 700 mil moradias (http://www.nossasaopaulo.org.br/portal/node/2199). Dados preliminares do Censo 2010, divulgados no último mês, mostram que no estado de São Paulo há 1.112.000 de casas vazias, enquanto que o Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP) estima que haja 1.127.000 famílias sem teto ou com residências inadequadas. O défcit habitacional “real”, portanto, seria de apenas 15 mil moradias. Em âmbito nacional, os dados são ainda mais surpreendentes: o número de casas vazias supera o de famílias que necessitam de moradias (http://www.brasil.gov.br/noticias/arquivos/2010/12/13/numero-de-casas-vazias-supera-deficit-habitacional-do-pais-indica-censo-2010).

Antes de morrer, Bernardo Collares deu uma declaração em que expressava seus motivos para escalar: “As montanhas são uma espécie de reino mágico onde, por meio de algum encantamento, eu me sinto a pessoa mais feliz do mundo”. (http://odia.terra.com.br/portal/rio/html/2011/1/plano_para_resgatar_alpinista_135637.html).
Buscava sua felicidade, como propõe o marketeiro projeto de lei de Emenda Constitucional que visa incluir este “direito” na Carta Magna brasileira (http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,buarque-quer-pec-que-da-direito-a-busca-da-felicidade,557159,0.htm). Melhor seria se o Congresso se ocupasse na tentativa de viabilizar o direito à moradia digna, que já se encontra na Lei e é responsabilidade pública, deixando a felicidade e sua busca a critério privado dos cidadãos.

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