Desde que ingressei no curso de Ciências Sociais, no já distante ano de 2006, um elemento da sub-cultura universitária, expandido para o circuito baladeiro e do show business nacional, me intriga: nas festas, i-pods, aparelhos de MP3 e de rádio uma modalidade diferente de música soava: a música "universitária". O primeiro estilo a adentrar o cobiçado espaço das faculdades, ao que consigo me lembrar, foi o forró. Sucedeu-lhe o pagode, o sertanejo – que se encontra, no momento, no auge de seu sucesso – e, nos últimos meses de 2010, “fomos surpreendidos novamente”: o cartaz de uma festa anunciava um ambiente com “funk universitário”. Essa para mim é nova: foi a primeira vez que vi este adjetivo associado ao pancadão, mas não seria nenhuma surpresa vê-lo ganhar corações, mentes e corpos que descem até o chão de pessoas matriculadas em instituições de ensino superior Brasil afora.
Por detrás da alcunha “universitário” – uma classificação adotada de forma a demarcar diferenças – ou melhor, antes dela, encontram-se ritmos musicais depreciados estética, cultural e moralmente como inferiores pelo respeitável público de “bom gosto” que freqüenta as universidades. São manifestações musicais típicas de grupos populares, alvos de inúmeros preconceitos, como o de que seriam “baixos” e de mau-gosto: segundo representações comuns, forró é “rala-bucho” de nortista brega e safado. Pagode não seria música, seria lixo criado por aqueles neguinhos sem cultura, “manos” sem estilo, ostentadores extravagantes com suas roupas e acessórios estrepitosos e cabelos pintados de loiro. Sertanejo, pura cafonice caipira dos “pé-vermeio”, terrível! E agora o funk? Aquela putaria?
Aparentemente, “universitário” é uma palavrinha mágica dotada do poder de elevar qualquer coisa a “nível superior”. Nossas classes médias e altas (e os aspirantes a ela, já inebriados e adeptos de sua ideologia classista), que sempre confundiram, proposital e convenientemente, elite econômica com elite intelectual e cultural, ao se renderem às manifestações musicais populares – muitas delas, verdade seja dita, de qualidade discutível – não poderiam, de forma alguma, dar testemunho de seu mau-gosto. Rebatizar forró, pagode, sertanejo e funk de “universitários” parece ter sido o meio encontrado por estes setores para curtirem sem peso na consciência seu verdadeiro deleite musical, com a ilusão de que, chamando os estilos de “universitários” se distanciam da suposta inferioridade cultural dos grupos sociais originalmente produtores e apreciadores daqueles ritmos. Procuram manter a “necessária” distinção, manter a “classe”. Porém, como diria a já clássica letra de Tati Quebra-Barraco: “é som de preto, de favelado; mas quando toca, ninguém fica parado!”
O ódio presente no discurso dos setores que não apreciam estes estilos – ou dos enrustidos que não têm coragem de admiti-lo, para manter seu verniz Cult, mas que nas festas os cantam e dançam freneticamente – geralmente não se limita à crítica estética, se é que a alcança, mas utiliza-a para disfarçar o preconceito de local e de classe, e demarcar distâncias e hierarquizações. Por trás da ojeriza, que precisa ser declarada pública, agressivamente e em alto e bom som ao forró, pagode, sertanejo e funk, vejo a necessidade de afirmação de superioridade da juventude do sudeste por sobre a cultura nordestina; das classes médias, altas e aspirantes ao que é produzido por pobres; dos moradores de áreas urbanas que querem afirmar sua pretensa modernidade frente ao atraso rançoso que cerca o “sertão” e da promiscuidade sexual e baixos valores morais que cercariam os funkeiros favelados.
Não se trata, aqui, de negar às pessoas o livre discernimento e escolha daquilo que irão ou não ouvir ou gostar: eu mesma não aprecio alguns dos ritmos em questão. Mas isso não me faz odiá-los, vociferar contra eles e os grupos que originalmente os produziram, ou, por outra, inventar uma demarcação artificial para me permitir gostar daqueles estilos sem “descer do salto” e “baixar o nível”. O ponto que eu gostaria de destacar é que a maioria das críticas que ouço àqueles estilos musicais não são críticas musicais, estilísticas, estéticas, artísticas ou coisa que o valha: são uma forma socialmente aceita de externar preconceitos contra as classes populares e consolidar as representações sociais que as descrevem como culturalmente inferiores. Se não, como explicar as poucas críticas que recebem alguns estilos ou “artistas” cuja qualidade artística de sua produção é bastante questionável, mas não está associada a grupos “subalternos”? Como explicar a ausência de crítica – e, quando ocorre, desprovida daquela indignação inconformada que cerca as críticas às “músicas de pobre” – a este pseudo-rock de doer os ouvidos? Às músicas tolas de cantores pop nacionais e estrangeiros? À “putaria” do rap e do pop norte-americanos? Como diriam os Titãs: “Um idiota em inglês/Se é um idiota, é bem menos que nós/ Um idiota em inglês /É bem melhor do que eu e vocês”...
A maior “prova” de que o pano de fundo e as razões profundas da acerba crítica às manifestações musicais de grupos nacionais subalternos não são estéticas e sim classistas é quando ouço os comentários acerca das mesmas músicas interpretadas por cantores de diferentes estilos. A música “Esperando Aviões”, do compositor mineiro Vander Lee, considerado uma das maiores revelações recentes da MPB foi descrita como “lixo”, “melosa” por uma colega wanna be que diz adorar MPB e não conhecia a origem da música, quando a ouvimos cantada por um grupo de pagode. Duvido que a reação seria a mesma se ouvisse a versão de Lee. As músicas são descritas, integralmente, sem pestanejar e sem uma crítica mais detida pela decomposição de seus elementos (letra, arranjo, voz do cantor, etc) como ruins, totalmente ruins. É como se “Baba baby” de Kelly Key e Maria Gadu, “É o amor” de Zezé de Camargo & Luciano e Maria Bethania e “Fico assim sem você” de Claudinho & Buchecha e Adriana Calcanhotto – só para citar alguns exemplos que me vêm a mente – não mantivessem a mesma letra e melodia. Há que se argumentar que a voz de uns é superior a de outros – e eu devo concordar, sem dúvida! – mas, se desde o começo o problema fosse apenas a interpretação do cantor e não a música em si, por que classificá-la, raivosamente e sem mais de “lixo”? O desprezo dirigido a alguns artistas e o prestígio concedido a outros (mesmo quando gravam músicas terríveis, mas têm um nome estabelecido na praça) é transferido àquilo que produzem, e isso me faz pensar que a crítica não é musical (como seria se a argumentação se baseasse em que o tal “não canta nada”), e sim se dirigem ao próprio cantor e a classe que ele representa, com frequência, com suas origens biográficas.
Mas, caros colegas, sem stress! “Seus problemas acabaram”: o rótulo e a nova geração de cantores “universitários” estão aí para permitirem que vocês gozem em toda a plenitude de seu mau-gosto, e sem peso na consciência!
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