A intenção era mesmo a de escrever o post dessa semana sobre a situação da mulher – mais uma vez e sempre, enquanto necessário, estarei eu aqui a hastear a bandeira de mais este “-ismo”. Sim, essa é a forma pejorativa a que muitos – e muitas – deslegitimam, sem pestanejar, a árdua e inglória luta pela igualdade de direitos e dignidade entre os sexos. Na falta de tempo e inspiração para fazê-lo antes, ligo a TV desanimada em mais um fim de noite, e aí me surge a ponta do novelo: uma reportagem sobre as liquidações de início de ano nas lojas, explorando a imagem das mulheres, “naturalmente” afeitas ao consumismo. Mas a gota d’água foi apresentar “até um homem” aderindo aos super descontos, como se fosse algo de extrema raridade, e, por isso, digno de destaque.
Nessas e noutras representações – através de anúncios publicitários, novelas e nas mais diversas formas de discurso – reitera-se a caricaturização da figura feminina como fútil, compulsivamente preocupada em comprar, de preferência pagando com o cartão do homem que a sustenta. Numa visão mercantil das relações afetivas, em que se espera da mulher que assuma a posição de “prostituta de um homem só”, a estereotipia produz, como numa imagem em negativo, os contornos das relações de poder distribuídas entre os sexos: os homens detêm o poder econômico e as mulheres o poder da manipulação através da beleza física e dos dotes afetivos. A eles, o poder conferido pela cultura, a elas, os atributos “doados” pala natureza. São conhecidas e infames as oposições: razão x emoção; lógica x intuição; dureza x sensibilidade, dicotomias sempre evocadas quando se procede às comparações entre o masculino e o feminino.
É verdade que os homens, quando não se encaixam nos papeis masculinos que lhe são impostos (como os que que gostam de atividades tidas como femininas, a exemlo da dança; os homossexuais, frequentemente apelidados de “mulherzinhas”), sofrem com os padrões impostos, também opressores. Margaret Mead, antropóloga norte-americana que realizou trabalhos de campo em tribos da Nova-Guiné entre as décadas de 1960 e 70 (estudo que culminou no famoso livro Sexo e Temperamento), explicita, através do contraste com outras culturas, que os comportamentos masculinos e femininos que observamos nas sociedades ocidentais nada tem de natural, sendo apenas uma construção histórica e cultural específica. Chega ao final da obra com a proposição que nossas sociedades se tornem mais flexíveis e abdiquem de impor a homens e mulheres comportamentos estereotipados, permitindo-lhes desenvolver sua personalidade de acordo com suas aptidões e características individuais, em quaisquer direção que caminhem.
O falo e o poder
Nossa cultura relegou historicamente as mulheres à submissão aos homens, e as relações de poder existentes na contemporaneidade encontram-se indelevelmente marcadas por esta milenar cisão, apesar dos avanços. A tradição ocidental, judaico-cristã, que em seus textos sagrados descreve o homem como “a cabeça” lamentavelmente ainda contribui para formatar as mentes femininas em sua freqüente aversão ao comando, exceto das maçantes atividades domésticas. A versão profanizada as enxerga apenas como objetos – sexuais e de trabalho servil, comandado e “leve” – jamais como sujeitos, e ambas as vertentes contribuem para solidificar, até ao ponto de tornar imperceptível e natural à maioria das pessoas, que existem “coisas de homem” e “coisas de mulher”, e que apenas às primeiras competem a ação, a força, o comando e o poder.
A definição de posições sociais, visões de mundo e mesmo o próprio “interesse” (que, a princípio, pode parecer mero reflexo do “instinto”; ou, numa versão mais intelectualizada, de autonomia e “livre-arbítrio”) encontram-se viciados por ideologias e mecanismos sociais que são instituídos e definidos pela relação de dominação. É o que Bourdieu conceituou como “violência simbólica”:
A dominação masculina é uma dominação de tipo particular que, por mais que se diga o contrário, não repousa sobre a violência física... Ela repousa sobre o que chamei de violência simbólica, ou seja, a violência que resulta do fato de as pessoas terem na cabeça princípios de percepção, maneiras de ver que são produto da relação de dominação. Isso não quer dizer que as mulheres sejam fracas, idiotas, submissas, quer dizer que as estruturas sociais levam-nas – desde a infância, na família, na escola – a incorporar, interiorizar um tipo de relação masculino-feminino, através, por exemplo, do sistema de adjetivos.A distinção entre hard e soft... entre as ciências duras e as ciências moles, é masculino-feminino. Quanto mais nos aproximamos das ciências moles, mais elevada é a proporção de mulheres encontradas e inversamente para os homens. Se as coisas se passam dessa forma, não é porque dirigimos as mulheres para o social, para o feminino, para as belas-artes, enquanto os homens ficam com as matemáticas, a física; é também porque as mulheres pensam que não são dotadas para essas matérias, que são feitas para as primeiras, que as últimas não lhes interessam. (Pierre Bourdieu entrevistado por Maria Andréa Loyola. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2002).
As mulheres que rompem barreiras que as segregavam a determinadas áreas sofrem diversos preconceitos, entre eles o de “não serem mais mulheres”. Vi isso durante a campanha presidencial, ao ouvir mais uma piada sem graça do CQC: sem Marina no segundo turno, o Brasil perderia a oportunidade de ter a primeira mulher na presidência em 2011. Enquanto um falava, outro dos machistas da bancada imitava os trejeitos supostamente masculinos de Dilma. Então firmeza, competência técnica (em uma área dominada por engenheiros, como é a de Minas e Energia, especialização da presidente), perfil gerencial, voz grave e cabelos curtos – além, óbvio, do cargo que disputava – fazem dela menos mulher? Pior: os rumores de que ela seria homossexual, apenas por ser divorciada, e como se fosse este o cerne da discussão quando se avalia a aptidão de alguém a um cargo público (preconceito que, façamos justiça, também atinge o atual prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, por ser um homem solteiro).
É por isso que adoro ver um “troca-troca”, homens fazendo “coisas de mulheres” e mulheres fazendo “coisas de homem”, embora não possa negar meu maior deleite nas últimas, pois sinto me dizerem respeito mais diretamente: além de indivíduo descontente com as imposições sociais, também enquanto membro do mais oprimido gênero. É ótimo ver Dilma na presidência, e este é mais um importante tijolo derrubado nos tabus que separam o que é atribuição feminina ou masculina na política, assim como ver o aumento no número de ministras, uma delas, na equipe econômica. Mas o caminho da mulher na atividade política é cheio de avanços e recuos: não avançamos no parlamento e nem conseguimos cumprir a lei que determina a obrigatoriedade de 30% de candidaturas de mulheres. Gostei de ver o carro de posse de Dilma cercado por seguranças do sexo feminino, assim como adoro igualmente de vê-las engenheiras, policiais, motoristas de coletivos, jogadoras de futebol etc, rompendo, pouco a pouco, o cordão simbólico que determina as posições sociais a partir de diferenças biológicas.
Um comentário:
Parabéns pelo texto, Gisele! Ambos os gêneros sofrem com esteriótipos, mas é claro que a misoginia é a face mais nefasta dos preconceitos de gênero, e também a mais presente, como personificado pelos humoristas de péssimo gosto do CQC.
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