O papel da indústria do entretenimento, como a própria designação denuncia, seria a de entreter, distrair, divertir. Entretanto, às vezes esta esfera é extrapolada e o passatempo transforma-se em algo mais sério, algo emblemático quando observamos, por exemplo, as torcidas organizadas de times de futebol, uma espécie de “tribo” em que a identidade do grupo é definida, reforçada e reafirmada a cada partida. Para além de uma mera distração, o símbolo das equipes é quase um totem sagrado, pelo qual se pode – no limite, literalmente – matar ou morrer.
Tempos atrás (este texto está em minha cabeça, esperando para ser escrito, desde fevereiro) elementos da fiel torcida corinthiana protagonizaram atos de vandalismo como forma de manifestação de seu descontentamento com o mau desempenho do time, eliminado do campeonato de futebol mais importante da região, a Taça Libertadores da América. Comentaristas esportivos, imprensa afora, disseram ser aquilo algo puramente irracional, criminoso e que não manifestaria a posição do autêntico torcedor, que, diante da decepção, se contentaria em consolar-se em sua casa ou à mesa de um bar. Talvez a “propensão à honestidade”, o medo de ser apanhado cometendo uma atividade ilícita, impeça o envolvimento de mais torcedores em efetuar esta cobrança, digamos assim, enfática.
Embora a maioria dos torcedores não chegue às vias de fato e manifestem sua insatisfação apenas verbalmente, é notório o envolvimento dos torcedores – especialmente os do Corinthians – com os assuntos do time e as cobranças de resultados. A “Fiel Torcida” – que mostrou merecer seu apelido quando do rebaixamento do clube para a segunda divisão do campeonato brasileiro em 2007 – mesmo em uma péssima fase do time, criou uma forte mobilização com a campanha “Eu nunca vou te abandonar”, incentivando e dando uma prova de amor e fidelidade ao time. Uma espécie de “na saúde ou na doença...” Como diria Toquinho, ser corinthiano vai além de "ser ou não o primeiro".
O orgulho em pertencer à torcida, a ostentação de seus símbolos em camisas e demais acessórios fornecem uma identidade, algo em que se depositar expectativas e esperanças. Em suma: algo em que se acreditar (e torcer). A despeito das inúmeras falcatruas e denúncias de irregularidades que cercam as transações e campeonatos esportivos, e, apesar também, de há muito a indústria do entretenimento e do espetáculo haver suplantado o espírito desportivo, da competição justa e do “que vença o melhor”, as competições esportivas ainda gozam de bastante credibilidade entre o grande público. Os torcedores resistem a ver sua paixão pelo time e pelo futebol transformar-se em outra coisa, em mero comércio (foi inevitável à minha lembrança a estória de Cristo, que teria expulsado mercadores do Templo...). Recentemente, divulgou-se levantamento apontando o Corinthians como a marca esportiva mais valiosa do mercado brasileiro (http://epocanegocios.globo.com/Revista/Common/0,,EMI195470-16370,00-MARCA+CORINTHIANS+E+A+MAIS+VALIOSA+DO+FUTEBOL+BRASILEIRO.html). A torcida, diante disto e das derrotas em campo, reclama e diz que o time, seu elenco e seu símbolo não podem metamorfosear-se em um simples instrumento de marketing e captação de recursos.
Talvez todos estes protestos, desde os verbais até as pichações e quebra-quebras tenham um significado mais profundo que apenas o desejo de ver seu time vencer partidas e campeonatos. Embora sempre chame a atenção o paradoxo de ver as pessoas protestando em relação aos resultados do futebol – que, para além da simpatia por um ou outro time, não possuem relação direta com sua vida, à exceção do laço simbólico – e quase nunca por questões políticas ou que afetem seu cotidiano, como o aumento de passagens de ônibus, mal atendimento em serviços de saúde, etc creio que isto não seja mera demonstração de “alienação” por parte das massas. Não necessariamente porque política seja algo “chato” e futebol e novelas serem “legais” – quando o clima esquenta em época de eleições, são poucos os que permanecem completamente indiferentes. Estas representações, do que é considerado emocionante e do que é maçante, são construídas historicamente. No Brasil, nascemos quase “obrigados” a adorar futebol e a detestar política ou qualquer forma de participação coletiva ou reivindicativa por direitos de cidadania. A política, ou qualquer coisa que se conecte a ela, apesar de afetar em quase todos os âmbitos a vida do indivíduo, não é percebida como algo que lhe diga respeito, e, mais do que isso é algo completamente desacreditado. A sensação – calcada nas experiências de vida das pessoas – de que há um grande descaso das autoridades e políticas públicas, na qual todas as partes envolvidas pensam apenas em como poderão se beneficiar e locupletar-se à custa do desprotegido e impotente cidadão, as faz virar as costas para a política, como sendo algo sujo, de corruptos e as faz ver suas iniciativas em opinar ou reivindicar quase sempre nulas.
O orgulho em pertencer à torcida, a ostentação de seus símbolos em camisas e demais acessórios fornecem uma identidade, algo em que se depositar expectativas e esperanças. Em suma: algo em que se acreditar (e torcer). A despeito das inúmeras falcatruas e denúncias de irregularidades que cercam as transações e campeonatos esportivos, e, apesar também, de há muito a indústria do entretenimento e do espetáculo haver suplantado o espírito desportivo, da competição justa e do “que vença o melhor”, as competições esportivas ainda gozam de bastante credibilidade entre o grande público. Os torcedores resistem a ver sua paixão pelo time e pelo futebol transformar-se em outra coisa, em mero comércio (foi inevitável à minha lembrança a estória de Cristo, que teria expulsado mercadores do Templo...). Recentemente, divulgou-se levantamento apontando o Corinthians como a marca esportiva mais valiosa do mercado brasileiro (http://epocanegocios.globo.com/Revista/Common/0,,EMI195470-16370,00-MARCA+CORINTHIANS+E+A+MAIS+VALIOSA+DO+FUTEBOL+BRASILEIRO.html). A torcida, diante disto e das derrotas em campo, reclama e diz que o time, seu elenco e seu símbolo não podem metamorfosear-se em um simples instrumento de marketing e captação de recursos.
Talvez todos estes protestos, desde os verbais até as pichações e quebra-quebras tenham um significado mais profundo que apenas o desejo de ver seu time vencer partidas e campeonatos. Embora sempre chame a atenção o paradoxo de ver as pessoas protestando em relação aos resultados do futebol – que, para além da simpatia por um ou outro time, não possuem relação direta com sua vida, à exceção do laço simbólico – e quase nunca por questões políticas ou que afetem seu cotidiano, como o aumento de passagens de ônibus, mal atendimento em serviços de saúde, etc creio que isto não seja mera demonstração de “alienação” por parte das massas. Não necessariamente porque política seja algo “chato” e futebol e novelas serem “legais” – quando o clima esquenta em época de eleições, são poucos os que permanecem completamente indiferentes. Estas representações, do que é considerado emocionante e do que é maçante, são construídas historicamente. No Brasil, nascemos quase “obrigados” a adorar futebol e a detestar política ou qualquer forma de participação coletiva ou reivindicativa por direitos de cidadania. A política, ou qualquer coisa que se conecte a ela, apesar de afetar em quase todos os âmbitos a vida do indivíduo, não é percebida como algo que lhe diga respeito, e, mais do que isso é algo completamente desacreditado. A sensação – calcada nas experiências de vida das pessoas – de que há um grande descaso das autoridades e políticas públicas, na qual todas as partes envolvidas pensam apenas em como poderão se beneficiar e locupletar-se à custa do desprotegido e impotente cidadão, as faz virar as costas para a política, como sendo algo sujo, de corruptos e as faz ver suas iniciativas em opinar ou reivindicar quase sempre nulas.
Tenho a impressão de que a busca por satisfação, por lisura e por justiça, que deveriam ser direcionadas às instituições públicas acabam por ser desviadas para produtos de entretenimento que as pessoas deveriam usufruir, mas, no íntimo, ter uma relação relativamente indiferente. Na prática, dá-se o oposto. Apesar de eu haver iniciado o texto falando a respeito de um clube de futebol, outro fato (também de fevereiro, estou um mês atrasada...) também me chamou a atenção para este deslocamento das expectativas de justiça do que é “sério” para o divertimento: a novela Passione, que, como quase todas as novelas globais das 21hs teve sua fase final extremamente comentada, acabou por decepcionar o público em seu desfecho. Isso porque a vilã da trama, a bela e psicopata Clara Medeiros (personagem vivida por Mariana Ximenes), depois de todas as maldades que cometeu, safou-se, não ficando presa, nem pobre, nem nada de ruim lhe aconteceu. Algo semelhante se deu no final de Belíssima, alguns anos atrás, em que a personagem de Fernanda Montenegro, que cometeu roubos e otras cositas más, também teve um final feliz que revoltou uma parte do público. Mas a comprovação de minha hipótese apresentou-se límpida a mim quando, dias após o término de Passione, uma pessoa próxima, noveleira de plantão, afirmou que não assistiria à novela seguinte. Quando eu a questionei pelas razões, recebi a resposta: ela não gostara do desfecho da novela anterior. Disse-me que, a vilã, ao se ver impune pronunciou: “Esse é o retrato do Brasil”. - “E eu lá quero ver isso? Retrato do Brasil eu vejo de monte, o que eu queria era vê-la punida!”
O futebol, um produto predominantemente masculino, as telenovelas, direcionadas ao público feminino. Em comum, a propriedade de realizar uma espécie de transcendência para um reino de idealismo e fantasia de seu desejo de lisura e justiça, já que concretamente ele é pouco visto e sentido. Entretenimento que encerra a esperança de se ver fazer justiça, de se ver alguma honestidade, algum resultado, de se lavar a alma e se regozijar. Não à toa, quando as pessoas têm problemas que reclamam solução urgente, pensam em resolvê-los (e às vezes de fato conseguem) através da exibição em programas de televisão, e, secundariamente esperam resposta das instituições que deveriam atendê-los de pronto. Isso vai desde o “DNA no Ratinho”, até a denúncia na Globo ou no CQC. O que, para mim, é mais um atestado de falência do poder público...
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| A torcida corinthiana. Imagem retirada do site de Época Negócios. "Corinthians é a marca mais valiosa do futebol brasiliro", reportagem de Silvia Balieiro |

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