As declarações polêmicas do Deputado Federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) no programa humorístico CQC, algumas semanas atrás, geraram diversas repercussões e manifestações (pró e contra) que ainda não arrefeceram de todo. O episódio serviu para que se denunciasse os preconceitos e violências sofridas pelos homossexuais, a falta de decoro do parlamentar; para que brotasse uma discussão enviesada sobre temas como “liberdade de expressão” e “politicamente correto”. Os desdobramentos do caso ganharam contornos de luta aberta entre ideologias, em que movimentos neo-fascistas deram as caras em pleno vão do Masp, em São Paulo, em defesa do conteúdo da fala do deputado, havendo confronto verbal com movimentos LGBT e militantes de direitos humanos. Deu o que falar...
Pelo visto, a única coisa que faltou debater foi o papel do CQC e de outros programas ditos humorísticos na disseminação do preconceito – um debate do qual quase todos fogem tal qual o demo da cruz. É muito simples –embora necessário e oportuno (oportunista?) – criticar a postura de Bolsonaro, mas alguém aí já parou para pensar que, as mesmas coisas, se ditas no tom debochado de alguns dos membros do programa passariam despercebidas, ou, no máximo, provocariam uma repercussão diminuta?
O humor, além do papel de entreter, é utilizado como meio de promoção, consolidação e naturalização de preconceitos, que, disseminados desta e de outras formas, contribui para a ocorrência de ações discriminatórias, bullying em ambientes escolares, e, em casos extremos - mas não infreqüentes - agressões físicas e assassinatos. Sim, porque ao contrário do que querem fazer crer os arautos do “politicamente incorreto”, os preconceitos e o clima de tolerância para com eles não surgem por geração espontânea. Faço questão de frisar este ponto por saber que, saídas da boca de algum CQC, bobagens como as que disse Bolsonaro seriam consideradas engraçadas. É mais fácil estar predisposto a condenar atitudes de políticos do que assistir criticamente a um grupo de humoristas famosos e charmosos.
Aliás, CQC – o nome oficial do programa é “Custe o que custar” – remete a uma tática militar chamada “Close Quarter Combat”, que em português se traduz por algo como “Combate em ambientes confinados”. Ela consiste em realizar movimentos treinados com o máximo de precisão para desarmar e atacar rápida e eficazmente o inimigo, com alto grau de proximidade física entre eles e parco aparato bélico. O uso da sigla não é mera coincidência, a se considerar o estilo “projétil verbal” utilizado pelos repórteres. Alguns de seus principais alvos, aliás, são figuras do meio político. Isso contribui para dar ao programa um verniz intelectualizado e “cidadão”, passando a imagem de seus membros como paladinos da justiça, o que serve para encobrir parcialmente o fato de que destilam misoginia e outras formas de preconceito com suas piadas de gosto duvidoso, com a sombra do humor a travestir uma agressão. Como diria Augusto dos Anjos, o beijo, amigo, é a véspera do escarro...
O caso mais escandaloso de demonstração de preconceito por um membro do programa foi uma série de mensagens racistas no twitter e blog pessoais de Danilo Gentili. Para “provar” que não se tratava daquilo, escreveu um texto intitulado “Um post racista” (http://danilogentili.zip.net/arch2009-07-01_2009-07-31.html). A emenda saiu pior do que o soneto: o texto, bizarro, tinha como pomo da discórdia a discussão sobre o significado de apelidar um nego de macaco. Todos sabem – talvez até mesmo os primatas – o que isto representa: não uma referência a inteligência, como Gentili tentou disfarçar, mas sim o rebaixamento simbólico dos negros a uma linha inferior à da humanidade. Dentre outros acintes, também escreveu que os verdadeiros preconceituosos são os pretos – pois a espécie humana não se sub-divide em raças – tentando demonstrar com silogismos a ausência do racismo, como se fosse possível aboli-lo com meia dúzia de golpes de lógica. Infelizmente, não é tão simples assim.
Sugerir a proximidade de um negro com um macaco é inequivocamente uma ofensa – e de reconhecimento universal, como os recentes casos de bananas arremessadas ao gramado para jogadores de futebol brasileiros em partidas no exterior (Neymar, Roberto Carlos) ou a montagem do asqueroso Tea Party, que coloca Obama como um filhote de macacos não nos deixam mentir.
Dizer o contrário – ao invés de se retratar de uma piada infeliz – foi uma ofensa adicional por parte do humorista. Entretanto, a reação àquele episódio foi restrita: até onde sei, uma representação da Ong AfroBrás e alguns protestos pela internet. Apesar disso, não faltou quem saudasse as opiniões de Gentili como demonstrações de argúcia e coragem. Fossem palavras de alguma autoridade – como nosso deputado Bolsonaro – as conseqüências seriam sérias. Contrariamente ao discurso pronto de jornalistas e humoristas quando cobrados a ter responsabilidade pelo que dizem e escrevem, não se trata de “censura” ou “ditadura do politicamente correto”, mas uma exortação para que tenham bom-senso, maturidade e postura ética. Por que a única liberdade que, usada sem restrição, não se choca com os direitos alheios é a de pensamento, e não a de expressão.Leia também: "Afinal de contas, quem é que votou no Jair Bolsonaro?" http://quantotempodura.wordpress.com/2011/03/29/qtd-analisa-afinal-de-contas-quem-votou-em-jair-bolsonaro/
Um comentário:
Texto excelente! Eu acho importante ressaltar o papel que o humor e outras formas veladas de preconceito têm na consodalidação da discriminação no Brasil. E como é hipócrita um dito himorista dizer que não flertou com o racismo, porque divisão em raças não existe e quem a faz é racista. Malabarismo de linguagem muito conveniente para quem ostenta o humor "politicamente incorreto".
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