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A CARTA AO LEITOR DE VEJA: UM ESTUDO HISTÓRICO SOBRE EDITORIAIS

Carla Luciana Silva*

Resumo
Esse artigo traz um estudo, a partir da perspectiva histórica, sobre os editoriais
da revista Veja relativos ao período de 1989 a 2002. Busca apreender o sentido
da seção para a publicação, defendendo que a mesma constitui um espaço
privilegiado para a criação discursiva do “sujeito-Veja”. Essa é uma forma de
apagar os interesses concretos da revista em sua ação enquanto aparelho privado
de hegemonia. Nos editoriais percebemos como a revista busca se construir
como intérprete da história atual, ocultando seu papel enquanto parte
interessada nessa mesma história.
Palavras-chave: Revista Veja. Imprensa e hegemonia. Imprensa e poder. Editoriais
E-mail: carlalssilva@uol.com.br
Intercom – Revista Brasileira de Ciências da Comunicação
90 São Paulo, v.32, n.1, p. 89-107, jan./jun. 2009
CARLA LUCIANA SILVA

Nessa análise da Carta ao leitor de Veja pesquisamos 715
editoriais (da edição 1061 à 1775; de 1989 a 2002), como
parte de uma pesquisa mais ampla1. Fazemos aqui uma
eleição qualitativa dos editoriais. A principal questão é entender
o papel dos editoriais para a construção da ação concreta da publicação.
Compreende-se a revista Veja como um aparelho privado
de hegemonia (GRAMSCI, 2000), que defende interesses políticos
e econômicos próprios – os do Grupo Abril. Assim, buscamos
averiguar se e como esses interesses aparecem no editorial. Para
isso, dividimos o texto em quatro partes: a construção do “sujeito-
Veja” como forma de ocultar os interesses políticos e econômicos;
a auto-atribuição de uma missão histórica por parte da revista; a
relação com a opinião pública; e a utilização das reportagens para
legitimar a posição do “sujeito-Veja”.
A Carta ao Leitor de Veja é o seu editorial. O fato de não
chamar de editorial tem a ver com a tentativa permanente de
descaracterizar esse texto como um posicionamento político,
buscando defini-lo como simples “verdade”, mesmo que o seu
sentido original fosse ser uma “carta” ao “leitor”. Parece provável
que o sentido de “carta” tenha a ver com o primeiro diretor de
redação, que, por ter maior autonomia editorial com relação à
direção da revista criou essa expressão. A intenção parece clara:
de (Mino) Carta ao leitor.
A seção sempre foi escrita pelo diretor de Redação, e em
casos excepcionais pelo presidente do Grupo Abril, quando leva
a sua assinatura e é chamada de Carta do Editor. Têm sido vários
os recursos de Veja para levar à leitura do seu editorial. A partir
do início dos anos 2000 há uma página fixa de editorial, que é
efetivamente o primeiro texto da revista, e tem ao lado o índice,
dividindo espaço com o anúncio da joalheria H. Stern. Neste
conteúdo, o editor:
1 Este artigo é parte modificada de um capítulo da Tese de Doutorado (SILVA, 2005).
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“procura cumplicidade com seus leitores”, pois “ao falar da construção de
suas capas, apresenta o lado humano de seus jornalistas, o trabalho artístico
dos profissionais envolvidos, a complexidade do esquema industrial
para confeccionar a revista, entre outras revelações de seus bastidores”
(CARVALHO, 1998, p.145).
O ex-editor de Veja, Carmo Chagas, afirmou que:
“são pouquíssimos os leitores de editoriais, mas aprendi que eles são escritos
exatamente para esses pouquíssimos leitores. Os empresários mais
sólidos, os políticos mais perspicazes, os economistas mais consistentes, os
intelectuais mais atentos constituem a elite interessada na opinião que
aparece todo dia na imprensa” (CHAGAS, et al, 1992, p.58).
A diferença dos leitores, segundo ele, se daria assim: “a massa
de leitores vai atrás das manchetes, das notícias mais quentes de
cada dia. Atira-se com sede à informação. A elite vai atrás das
páginas de opinião com a mesma sede”. No entanto, essa afirmação
oculta o fato de o leitor de Veja por si só já é “elite”, a revista
não é um instrumento “de massas”, por isso, o editorial é lido por
um número maior de pessoas do que o ex-editor quis fazer crer.
A criação do “sujeito-Veja”
Veja busca homogeneidade em torno de si, criando um “sujeito”
como forma de negar os conflitos que porta. Esse sujeito aparece
como homogêneo, e envolve tudo o que for publicado pelos seus
jornalistas e editores. O editorial é o lugar preferencial de criação
da publicação, ocultando os interesses que encerra. Nele, o editor
deve sumir e ceder lugar. Ela é sempre tratada pela terceira pessoa:
ou VEJA, ou “a revista”. O editor fala em seu nome, dos editores,
repórteres, fotógrafos, gráficos e outros profissionais. Todos, no seu
trabalho, devem falar e mostrar o “pensamento” da revista.
Veja busca se credenciar como mais qualificada em relação ao
restante da grande imprensa pelo fato de ser a maior revista semanal.
Isso lhe daria maior possibilidade de síntese, não apenas na
alegada busca de um “resumo da história”, mas também no sentido
da seleção dos fatos mais relevantes. Ela reitera sua inspiração na
revista Time. Segundo a publicação brasileira, ela é “um modelo
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inclusive para VEJA, mesmo porque o próprio conceito e o formato de
uma revista semanal de notícias foram inventados por Henry Luce, o
criador de Time” (Veja, 26/2/92, 15). O veículo teria como função
retirar do leitor o incômodo de ter que ler jornais todos os dias,
visto que na “vida moderna”, não sobraria tempo para esse tipo de
“luxo”, atribuindo-se então o direito de fazer a seleção:
A missão central de uma revista semanal de informação é avaliar, selecionar
e repassar aos leitores de forma inteligível as novidades que pipocam
no Brasil e no mundo. (Veja, 22/4/98, p.7)2
O editorial afirma que o texto não se detém a relatar, mas
“coloca ordem nas coisas”; mais que isso, diz colocar as coisas em
uma ordem de importância. Essa ordem é dada pela própria revista,
que teria um sensor que captaria quais as “mudanças” que
“realmente importam” na sociedade (da qual se auto-exclui).
Essas mudanças, vistas pelo seu “binóculo”, deveriam servir de
guia para os demais membros da sociedade, no sentido de pautarem
suas vidas. Essa visão se completa assim:
A função de uma revista semanal de notícias é aprofundar a apuração,
oferecendo ao leitor a moldura em que o [fato] ocorreu, o panorama
histórico, as implicações imediatas e de longo prazo para a situação política
[....] Não basta contar os fatos. É preciso tentar entendê-los (Veja,
15/11/98, p.33).
Veja se coloca como capaz de permitir ao leitor estar em dia
com as tendências que “realmente importam”, colocando-se como
seu intérprete. Para isso, os seus “olhos” permitiriam “ver” de
outra forma:
Uma revista semanal de notícias não é um mero relato da semana que
acaba de passar. É preciso hierarquizar as notícias, dando atenção maior aos
fatos mais significativos que aconteceram no Brasil e no mundo. Uma
revista semanal é feita, por fim, de um outro tipo de notícia. É o que ocorre
nas reportagens que buscam detectar mudanças na sociedade, tendências
de comportamento. Aí é necessário inverter o binóculo, olhá-lo ao contrário,
como que, a partir de um fato específico, apresentar um panorama maior
(Veja, 2/3/94, p.17).
2 Todas as citações se referem à Carta ao Leitor de Veja. Todos os grifos marcados
em itálico são da autora.
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Jorge Freitas (1989, p.2) chamou atenção para o nome da
revista, diretamente vinculado ao “olho” que “vê”:
O imperativo afirmativo do verbo VER, utilizado como título da revista
Veja, significa não uma ordem, uma determinação, mas um convite, uma
exortação aos leitores para que cumpram a ação indicada, através do
olhar, assim eles deverão informar-se sobre o que se passa no mundo. [...]
Veja propunha, no olhar, um ponto de vista de Veja, na tentativa de repetir
o itinerário da sombra à luz, proposto por Platão.
A prática de comunicação posta em prática pela revista
mostra um olhar é sempre seletivo. É tão forte essa imagem que
a revista criou um logotipo em que diz ser “os olhos do Brasil”. Há
um olho no centro do círculo da bandeira brasileira, reafirmando
a idéia de que ela seria quem melhor seria capaz de “ver” a realidade
nacional. Segundo Hernandes (2004, p.79), significa que
“a revista pratica uma das missões do jornalismo que é a de vigiar,
estar atenta e reportar acontecimentos, contradições, falcatruas”
e “a publicação é mostrada como participante dos destinos brasileiros,
daí a idéia de fusão entre o ato de olhar com a bandeira
brasileira. a idéia de porta-voz aqui foi substituída pela de ‘porta
olhos”. Insistimos em questionar em que medida efetivamente essa
missão seja realizada, ou seja, apenas uma definição de princípios
que jamais poderá ser cumprida pois sempre pode estar em contradição
com seus interesses.
Na revista, mudanças são propostas como novidades, não
processuais. Há o apagamento da ação humana, ou melhor, a ação
é apenas observada, ela não tem explicação externa, pois não se
busca entender o “porquê”, apenas o “como”. Há um oculto caráter
político nessa forma de se colocar por parte da revista, se
dizendo mais capaz de explicar a complexidade do real:
Quem acompanha o noticiário diário sobre política e economia pode
ficar com impressão de que o Brasil não muda. [...] Mas, ao se afastar
um pouco do noticiário cotidiano, fragmentado e superficial, é possível
perceber que, sim, há modificações em curso no Brasil. Com idas e vindas
naturais, com testes e reformulações, com negociações e provas de
força, com ziguezagues, é certo, mas as mudanças estão ocorrendo (Veja,
21/2/96, p.17).
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Essa fala tem o sentido de dar irrestrito apoio às reformas do
Estado, especialmente da Previdência Social, intentadas pelo
governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Veja destaca
mudanças nas quais pode parecer que elas não existem, com
um tom altamente otimista, induzindo a uma forma de se posicionar;
se coloca como divulgadora das efetivas “mudanças sociológicas”,
que seriam “naturais”, e não fruto das correlações de
forças sociais. E completa dizendo que “Há várias maneiras de
observar o Brasil”, trata-se de uma questão de opção. No entanto,
quando Veja “mostra o melhor”, deixa de ser uma opção, e passa
a ser a verdade. A política e a economia (sempre discursivamente
dissociadas) são reduzidas a uma questão de opção de ponto de
observação. Como o “olho de Veja” veria na “melhor perspectiva”,
quando lhe convém ela retira atenção dos problemas nacionais,
da corrupção, enfim, do pessimismo com relação ao processo
político. E, algo recorrente, se coloca como portadora do que
seriam os desejos do grande sujeito “Brasil”. De acordo com esta
fala não seriam os homens e mulheres que agem, mas “o país”.
A missão de Veja: rascunhar a história e publicar “apenas” as
notícias “dignas de serem publicadas”
Reiteradas vezes o editor de Veja defende princípios próximos
à noção de “responsabilidade social”, sintetizada no seu alegado
“compromisso com o leitor”. Essa teoria “entre outras coisas,
recomendava que a imprensa deveria proporcionar ‘um relato
verdadeiro’, completo e inteligente dos acontecimentos diários
dentro de um contexto que lhes dê significado’” (HUTCHNIS apud
MORETZSOHN, 2002, p.57). A expressão grifada é uma das idéias
chave defendida nos editoriais de Veja.
Segundo os próprios editoriais, sua função iniciaria em vigiar
os fatos: “a imprensa, inclusive a internacional, está de olho no
assunto”. (Veja, 1/5/96, 29) Não importa que o ato de observar
não pressuponha uma ação posterior, pois é possível observar e
ficar parado, sem fazer nada posteriormente. É como se desejasse
do leitor a inércia. Esse ato se completa com a investigação, que
é a intervenção da imprensa:
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É função da imprensa descobrir casos de corrupção (Veja, 24/7/91, p.15).
A imprensa existe para contar e explicar o que está acontecendo (Veja, 30/
9/92, p. 4).
A missão da imprensa é buscar a verdade, apurando os fatos com rigor
(Veja, 27/5/92, p.15).
É missão da revista buscar também a notícia exclusiva, apresentando-a num
contexto maior, delineando suas implicações (Veja, 6/3/96, p.17).
Se ao observador cabe ficar parado, a descoberta deve ser
encarada como a expressão da verdade, subentende-se. Ao fazer
isso, a imprensa estaria apenas cumprindo um serviço: “Foi a
imprensa, cumprindo um serviço inestimável ao país, que mostrou
as proporções inacreditáveis a que chegou o assalto ao Estado”
(Veja, 16/9/92, p.17). Ao mesmo tempo, enuncia que assume um
posicionamento diante dos fatos:
A tarefa de revistas e jornais é noticiar o que está acontecendo, contribuindo
para que, através da informação e do debate, a sociedade escolha as
melhores opções (Veja, 20/11/91, p.31).
Não é função da imprensa derrubar, indicar ou nomear ministros. Ela deve
tão-somente relatar os fatos, analisá-los, criticá-los e opinar a respeito deles
(Veja, 8/12/92, p.17).
Uma missão pode simplesmente ser uma incumbência de “informar”,
como pode trazer em si um caráter doutrinal, como que
enviando aos incautos “palavras de boa fé”. Esses dois elementos
estão presentes na definição, pois ao mesmo tempo em que “noticia”,
“dá a real dimensão” dos acontecimentos. Ela não quer ser
confundida com os demais atores sociais, se mostra como alguém
que “presta um serviço” ao conjunto da nação. Esse serviço seria
o desvendamento de fatos escondidos, obscuros. Para fazer isso,
ela deve se colocar de fora dos acontecimentos – deve “ficar de
olho”, “dar o alarme”. Assim, os outros setores desse complexo
“harmônico” que, segundo ela, seria “a sociedade”, cumprem suas
funções e “fica tudo como deve ser”. Ela se coloca na posição de
sempre “contar” o que está acontecendo, como um sujeito externo
e neutro, que simplesmente observa.
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Veja não se assume enquanto parte diretamente interessada
naquilo que noticia apenas se coloca como um ente capaz de dar
a “real dimensão dos fatos”. É a partir dessa verdade que a “sociedade”
(da qual ela busca discursivamente se auto-excluir) poderá
buscar as “melhores opções”, podendo até expor nas ruas em “alto
e bom tom o que pensa”. A sua versão é colocada como imbatível,
visto que “o fato” não é desmentido. Um exemplo disso foi a
quantidade de comentários e contestações sofridas pela revista
quando, às vésperas das eleições presidenciais de 2002, publicou
uma reportagem contra o então candidato Luiz Inácio Lula da
Silva. Na edição seguinte o editor comentou que:
A reportagem O que querem os radicais do PT motivou um número recorde
de cartas dos leitores. Foram 964 comentários. VEJA gostaria de registrar
com orgulho que a reportagem não mereceu um único reparo
factual dos leitores que escreveram contra ou a favor de sua publicação
(Veja, 30/10/02, p.9).
A supremacia do “fato” pode ter uma relação direta com o
“caráter missionário” da imprensa, como mostra Sylvia
Moretzsohn (2002, p.55):
Os princípios básicos do jornalismo baseiam-se na idéia de ‘esclarecer os
cidadãos’, relacionada a critérios de objetividade que dizem respeito ao
suposto poder de ‘verdade’ contido nos próprios fatos. Embora muito
criticada, essa idéia sobrevive ainda hoje, não apenas nos manuais de
redação, nas declarações de princípios dos jornais e mesmo em alguns
estudos acadêmicos, mas também em documentos que pretendem pontificar
sobre a humanidade como um todo: em 30/5/2000 o Vaticano divulgou
texto no qual apontava o jornalismo como nada menos do que uma
profissão sagrada.
Veja se coloca acima dos conflitos sociais. Por essa perspectiva
não se trataria de uma versão, nem se teria intervenção na realidade
no ato de narrá-la. Essas questões aparecem em um editorial
em que a revista rebate um discurso do ex-presidente Fernando
Henrique Cardoso:
Segundo o presidente, numa democracia de massas, essa revitalização tem
de levar em conta o papel dos meios de comunicação. ‘O risco, nos meios
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de comunicação de massa’, disse Fernando Henrique Cardoso, ‘é o de
simplificar os fatos, de valorizar a parte em detrimento do todo, a frase em
prejuízo do texto, a versão em prejuízo do fato real, a imagem em detrimento
da argumentação e, principalmente, o destaque, em qualquer acontecimento,
do aspecto particular que tem ‘impacto’, em vez de demonstrar
o processo que levou a ele (Veja, 20/3/96, p.27).
O editor estabelece um debate com FHC, classificando-o
como utópico. Deixa claro que está atento para os problemas
colocados pelo presidente, mas diz que tem sobre eles uma percepção
“mais verdadeira”, que seria “calcada na realidade”:
No plano das idéias, o alerta do presidente para a imprensa está correto.
No plano prático, contudo, a plataforma de Fernando Henrique para a
imprensa é utópica. Se não, vejamos. Sim, simplificar os fatos muitas vezes
é adulterá-los. Mas tornar simples o complexo, trocar em miúdo questões
incompreensíveis para o leigo, é uma das missões da imprensa. Sim, ao valorizar
a parte em detrimento do todo, pode-se perder o todo. Mas, às
vezes a parte serve de resumo, de símbolo para o todo. [...] Os riscos apontados
pelo presidente existem. Não há profissional da imprensa, de boafé,
que não tente obter o justo balanço entre os objetivos colocados por
Fernando Henrique Cardoso e as inseparáveis realidades e premências do
cotidiano (Veja, 20/3/96, p.27).
A publicação assume o que seria a “missão da didatização”,
na perspectiva simplificadora da realidade. Ela desloca a possibilidade
de uma imprensa preocupada com a complexidade dos
fatos para o campo da utopia. Trata o leitor como um ser incapaz,
desinteressado, inerte, ao qual caberia a ela despertar, simplesmente,
resumindo o mais importante, “poupando tempo e trabalho”.
Além disso, o que a revista apresenta não são “quaisquer
questões”. Segundo ela, são questões vitais, portanto, as que realmente
importam, relegando ao esquecimento tudo o que estiver
fora dessa narrativa.
O que a revista não expressa nessa sua intenção didática é
que ela implica em apagar o que foi descartado pelo simples desconhecimento
dado pela “desinformação” que induz a uma interpretação
própria da história, idéia desenvolvida por Ignácio
Ramonet (1999). Não é a toa que Veja diz, citando Phil Graham
ex-diretor do Washington Post, que “a imprensa faz o primeiro
rascunho da História. Esboço que, no futuro, historiadores podeIntercom
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rão usar para compor um quadro mais preciso” (12/2/97, p.7).
Segundo essa concepção, ela não faz uma interpretação sobre a
história, muito menos faz parte da história. É apenas uma
prestadora de serviço que resume, de forma “crítica, opinativa e
real”, os acontecimentos, ainda que reconheça que essa história
precise ser “passada a limpo”. Isso nos faz lembrar do Projeto Folha,
para o qual o Jornalismo é um “relato taquigráfico da história”3.
Trata-se da imprensa assumindo para si a responsabilidade de
sedimentar a realidade, como percebeu o jornalista José Arbex Jr
(2001, p.37): “na memória coletiva, as suas imagens dos eventos”,
estabelece-se a possibilidade de “crise da memória”, na medida em
que a memória que fica é essa, produzida pela mídia.
A convivência da amnésia com a memória é o mecanismo fundamental do
jogo praticado pela mídia – a qual, basicamente, constitui um imenso
banco de dados que, aparente paradoxo, aposta permanentemente no
esquecimento como condição básica para apresentar o ‘velho’, o ‘já visto’,
como ‘sempre novo’.
Veja diz selecionar “o que realmente importa lembrar”. O que
não é selecionado é levado para o lugar do esquecimento, e só
aparecerá quando ela o trouxer, da forma que considerar melhor.
É a dimensão pedagógica do seu discurso, e o que está escrito
quer ser sinônimo de verdade histórica. É por isso que à Veja se
aplicaria o slogan do New York Times: todas as notícias dignas de
serem publicadas, ficando como um simples detalhe a decisão do
que é ou não “digno de ser publicado”.
Veja busca mostrar-se sempre certa sobre as opções a serem
tomadas pelos seus leitores, apontando as tendências mundiais
(que aparecem como inexoráveis). Observe-se que para “deixar o
leitor em dia” sua fonte preferencial é a própria imprensa:
VEJA assina 45 jornais e revistas diferentes, em cinco idiomas, para saber
o que se passa pelo mundo afora, seja na área de ciência, seja na de
moda. As agências de notícias, o telefone, o fax e o correio despejam, sem
parar, dados, dicas, palpites e denúncias. A cada semana, a redação recebe
3 Projeto Folha. Consultado em: http://www1folha.uol.com.br/fsp/brasil/
fc170806.htm. Acesso em 3 abr. 2003.
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cerca de 700 cartas dos leitores com comentários, críticas e idéias de
reportagens. Semanalmente, mais de vinte artigos de leitores concorrem
a um espaço na seção Ponto de Vista. Todas as sugestões são bem-vindas.
Não apenas porque, em algumas delas, estão as pistas para boas reportagens.
Mas igualmente, porque é um orgulho para a revista que ela seja
encarada pelo leitor como um canal para as suas sugestões e idéias (Veja,
10/4/96, p.21).
A revista se coloca mais uma vez acima dos demais meios de
comunicação, pois decide (a partir da própria imprensa), o que
“vira notícia”, fato que só ocorreria, estando nas páginas da própria
Veja. Ao publicar mais um número especial Vida Digital,
conclui novamente:
“Acreditamos que esta edição dupla apresente um conteúdo jornalístico
com densidade e diversidade suficientes para informar e entreter os leitores
neste período de comemorações de fim de ano” (Veja, 27/12/00, p.9).
Isso significa que a publicação fará companhia, informando sobre
uma história que “marchará rumo ao futuro”, sem definir os sujeitos
dessa ação, pois se trata sempre de uma história reificada. Essa visão
da história encontra um campo muito fértil das elaborações ideológicas
da atual fase desenvolvimento do capitalismo: a negação do
processo, dos conflitos e da ação tranformadora humana.
Opinião pública: os interesses “do país” x os interesses de Veja
Os padrões de manipulação de um veículo de imprensa como
Veja não são absolutos e podem permitir mediação. Em alguns
momentos são difíceis de serem percebidos. A análise sistemática
dos editoriais aponta justamente para a forma prática como a
revista articula referenciais teóricos como o da “responsabilidade
social”, “quarto poder” e “opinião pública”, com uma atuação
concreta buscando parecer neutra, ocultando sua “ação partidária”.
Está claro o sentido de “responsabilidade social” como prática
das estratégias da publicação da editora Abril. Ela se utiliza
de uma vaga noção de sociedade que não apenas justificaria, mas
desejaria dela uma ação pedagógica. E a isso se agrega a função de
“quarto poder”, pois diz estar “vigiando”, expressão relacionada ao
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“olho que tudo vê”. Uma forma de tornar mais clara a ambigüidade
intencional dessa sociedade à qual representa, é observando a
manipulação da noção de “opinião pública”.
Veja sempre busca, na sua fala, se justificar em nome “da
sociedade”, “do país”, “do Brasil”. Com esse sentido também se
utiliza indiscriminadamente da noção de “opinião pública” para
legitimar as suas temáticas e tomadas de posição. A essa noção se
soma a de “interesse público”, de que Veja seria portadora, em
nome da sociedade brasileira:
No decorrer desse período, a revista cumpriu exemplarmente sua função de
divulgar informações de interesse público pertinentes ao caso. [...] A resolução
do episódio do grampo, com identificação e punição dos culpados,
é uma exigência da sociedade brasileira (Veja, 9/6/99, p.7).
Em raros momentos a revista define quem forma e como é
formada essa opinião. Nesse editorial, ela aponta: é algo para o
qual se deva “prestar contas”, seria então uma espécie de fiscalizador
ou credor:
Cada vez com maior nitidez, fica claro que um processo, profundo e devastador,
está em andamento: o da erosão de um sistema podre e venal de
se tratar das verbas auferidas através de impostos, de se fazer política e de
se prestar contas à opinião pública (Veja, 24/11/93, p.29).
Em segundo lugar, complementa de uma forma muito
elucidativa, para não deixar dúvidas do seu papel no processo:
E a opinião pública, concomitantemente, vai se formando e manifestando.
Ela se manifesta nas conversas em casa, nos comentários nos locais de
trabalho, nas discussões nas escolas, nos programas humorísticos da televisão,
nos debates nas rádios. O elemento decisivo na formação da opinião
pública é a imprensa escrita. Ao poder, imenso, da imprensa, deve existir
uma dose igual, ou maior, de responsabilidade (Veja, 24/11/93, p.29).
Esse texto, de rara clareza quanto ao seu papel, contradiz outras
acepções da opinião pública assumidas pela revista em variados
momentos, quando ela diz “captar”, “pesquisar” o que seria a “opinião”
da maioria da “sociedade”. Aqui está claro que é ela quem
“formula a opinião” que depois vai distribuir como pública.
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Em muitos outros momentos ela usa da “opinião pública”
como forma de apoiar projetos, ocultando o seu próprio papel em
sua criação, como no caso do lançamento do Plano Real:
O real saiu-se extraordinariamente bem na sua primeira semana de vida.
A nova moeda foi trocada sem atropelo e a população, mais que depressa,
aprendeu a usá-la. As pesquisas de opinião pública mostram que há uma
boa disposição popular em relação ao plano do governo, com a maioria das
pessoas achando que ele vai dar certo (Veja, 13/7/94, p.19).
Ora, se ela, enquanto imprensa, é decisiva para formar a opinião
pública, não seria necessário fazer uma pesquisa de opinião
pública para saber o que a sociedade pensa – bastaria vermos o que
ela considera relevante. A “opinião pública” tem justamente essa
função, de criar a ilusão de que a “maioria” das pessoas tenha refletido,
discutido, questionado, sobre um determinado assunto, e,
conhecedora de suas implicações, resolveu optar por essa ou aquela
posição sobre ele, por entender ser a mais adequada ao seu coletivo
(BOURDIEU, 1987). Em vários outros momentos a revista usa das
“pesquisas de opinião”, seja nos processos eleitorais, seja em
enquetes sobre violência, religião, ou outros temas. O que parece
estar claro é que embora haja um público específico, ela se justifica
por se colocar como portadora do que seria o melhor para toda a
sociedade brasileira, representada na “opinião pública”. Ela fala em
nome do que seriam esses consensos, sobre os mais variados assuntos.
A opinião pública aqui é uma forma clara de fazer crer que é
em nome de um coletivo que está sendo colocado em prática um
projeto que tem um sentido de classe muito claro e excludente.
A edição e a retirada do contraditório
Outra forma de convencimento que a revista se utiliza, visando
provar ao leitor de que seria o melhor veículo de imprensa
informativo, é a apresentação do trabalho de seus profissionais,
embora isso esteja em flagrante contradição com os poderes de
corte das diferentes editorias e do diretor de Redação.
A publicação procura ressaltar como grande mérito de seus
jornalistas o trabalho de coletar fontes, o que se supõe ser óbvio,
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mas, da forma colocada, parece não ser comum. Além desse trabalho
exaustivo, há um grande esforço em ressaltar o caráter informativo
da revista, também pela demonstração do trabalho dos
seus jornalistas, como no exemplo abaixo:
A reportagem sempre foi a alma do jornalismo de VEJA. Ela não se limita,
porém, à coleta de informações e à produção de textos e fotos publicados
na revista. [...] Durante duas semanas, percorreram cerca de 5000 quilômetros
no Pantanal, de carro, cavalo, barco e avião. Entrevistaram dezenas
de pessoas, leram livros e documentos e reuniram uma infinidade de
dados a respeito da região (Veja, 2/6/99, p.9).
Ocorre a efetiva existência de pesquisa, mas cujos resultados
nas respectivas reportagens, são submetidos aos interesses editoriais.
Os trechos abaixo são apenas exemplos do sentido que Veja
quer dar ao seu Jornalismo:
Nove jornalistas viveram uma grande aventura nas imensidões do interior
do Brasil... durante três semanas... foram mais de trinta viagens de avião,
carro, buggy, barco, cavalo, búfalo e, na falta de outras alternativas, a pé.
Atolou o carro numa estrada deserta e teve de andar a pé oito horas para
encontrar socorro numa fazenda da região (Veja, 7/12/94, p.31).
Passou oito dias no presídio, sem sair, comendo o que as presas comiam, dormindo
cada noite numa cela diferente, na maioria das vezes trancada,
como as internas (Veja, 7/6/95, p.31).
Durante as três semanas anteriores à entrevista, ela mergulhou no mundo
do ilusionismo. Leu dez livros sobre o tema, alguns deles encontrados em
sebos, como uma antiga edição americana de segredos de Houdini, o mais
célebre mágico de todos os tempos (Veja, 4/6/97, p.7).
São os mesmos argumentos para convencer o leitor da superioridade
da revista: o empenho de seus jornalistas, que viajam no
lombo de um búfalo, se submetem ao frio e má alimentação; vivem
grandes aventuras; fazem de tudo para convencer seus entrevistados
a falarem. Isso contribui para que a revista se coloque
como superior às outras. Todo esse trabalho, no entanto, não
resulta necessariamente em matérias amplas e que dêem conta de
todo o esforço e multiplicidades de posições que tenham sido
colhidas. O que acaba sendo publicado é a opinião “da revista”,
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A CARTA AO LEITOR DE VEJA: UM ESTUDO HISTÓRICO SOBRE EDITORIAIS
dada no fechamento do editor. O resultado dessas vastas pesquisas
muitas vezes não passa de matérias totalmente reformuladas pelo
editor, que faz com a reportagem fale o que “Veja pensa”, como
explica Hernandes (2004, p.28):
Num jornal diário, o curto espaço de tempo entre edições faz com que os
textos dos repórteres e redatores recebam correções dos editores sem grandes
alterações. As funções são bem demarcadas. Em VEJA, o período
maior de coleta criou outra dinâmica. As reportagens são muito mais
trabalhadas e controladas e, geralmente, um produto de diversas mãos. O
repórter, que já vive sob a camisa de força da pauta, na maioria das vezes,
após a apuração de dados, não tem controle do que será pinçado do seu
relatório e considerado relevante no texto final. Quanto mais importante
for um assunto, mais circula entre os editores, mais envolve diferentes
áreas, sucursais, agências de notícias e de imagens.
Esse processo obedece a ordens de importância de temas
para revista:
É comum um texto importante subir e voltar a descer na pirâmide hierárquica.
Um editor pode acrescentar uma informação que ele apurou. Outro editor,
num patamar superior, pode tirar a informação e colocar outras. Ou pedir
para o escalão abaixo refazer toda a pesquisa (HERNANDES, 2004, p.28).
O controle da revista se dá, no final da hierarquia, pelo diretor
de Redação. Segundo Mario Sérgio Conti, que exerceu o cargo de
1991 a 1997, esse processo se inicia com as reuniões de pauta das
segundas-feiras, quando a semana tinha início em Veja “às onze e
meia da manhã com a reunião na sala do diretor de redação”. Dela
participavam o diretor, os editores, o redator-chefe e diretor-adjunto,
quando “se discutia as possíveis reportagens de capa, quem
poderia ser o entrevistado das páginas amarelas, as matérias de
maior fôlego em andamento. Era uma reunião amena”. (1999, p.62)
Ainda segundo o ex-diretor, Veja tem um processo de produção
textual extremamente centralizado pelas editorias:
O encarregado escrevia o texto, seu editor pedia complementos e determinava
que fosse reescrito. A cada degrau na hierarquia a reportagem era
reescrita novamente. Autorizada a publicação, era hora da checagem. [...]
Esse ir e vir levava dias, às vezes semanas e, no gargalo final, era
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extenuante e neurótico. À meia noite, acontecia de se reescrever uma matéria
de oito páginas, com um novo enfoque e mais entrevistados, que às
vezes precisavam ser tirados da cama. [...] Apenas uma das oito pessoas
que entrevistara durante horas fora citada. Do seu texto original não sobraram
nem as vírgulas (CONTI, 1999, p.63).
Está claro que a revista cuida muito para manter sua homogeneidade,
inclusive com a formação dos jornalistas, além da ação
dos editores, que têm a palavra escrita final. O recorte não passa
pelo conhecimento de quem escreveu a reportagem, que só conhecerá
o resultado de seu trabalho após ter sido publicado. E isso
está presente no próprio recrutamento dos seus jornalistas:
VEJA costuma recrutar seus jornalistas de duas maneiras. A primeira é
contratá-los entre os profissionais que se destacam em outras publicações.
A segunda é por meio de treinamento de jovens recém-formados. Essa é
uma tradição antiga da revista. Em 1968, 100 profissionais selecionados
de diferentes Estados participaram, durante dois meses e meio, de um
curso cujo objetivo era ensinar a fazer jornalismo semanal. Assim nasceu
a primeira equipe de VEJA. O Curso Abril de Jornalismo é um programa
de treinamento criado, em 1984, com o propósito de atrair novos talentos
para essas revistas. Hoje é uma referência entre os formandos das escolas
de comunicação (Veja, 11/2/98, p.7).
Alguns dos principais jornalistas da revista têm sido formados
por esses cursos, como é o caso, por exemplo, de Eduardo Oinegue,
da turma de 1986 que chegou a redator chefe da revista. Além de
receber a formação, o jornalista tem a possibilidade de crescimento
profissional, ocupando lugares de decisão e edição na revista. Interessante
observarmos a posição do então diretor de Redação, Tales
Alvarenga sobre essa questão. Durante entrevista, Nilton
Hernandes questionou o fato de existirem mais editores que repórteres
na revista, e resumiu assim o seu estranhamento com a posição
de Alvarenga:
Um aspecto notável da entrevista com o diretor de VEJA é que ele nega
algumas características apontadas nas pesquisas e nas outras entrevistas
com os profissionais da revista. A existência de um número maior de
editores do que de repórteres seria apenas um problema de terminologia:
‘VEJA não tem mais editores do que repórteres. A maior parte da redação
é constituída por repórteres’ (HERNANDES, 2004, p.36).
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A CARTA AO LEITOR DE VEJA: UM ESTUDO HISTÓRICO SOBRE EDITORIAIS
A título de exemplo, na edição de 30/10/02, contamos: um
diretor de redação; um diretor adjunto; um redator chefe. quatro
editores executivos; nove editores; 13 subeditores; um editor assistente;
dois editores especiais; oito repórteres. Acrescentando os
dados das sucursais temos: cinco editores; um editor especial; dois
chefes; um subeditor; seis repórteres. Se somarmos todos os editores,
temos 38; e os repórteres são 14. Ou seja, a defasagem
constatada permanece, apesar da afirmação em contrário do responsável
pela revista. Isso indica que a preocupação com a
homogeneidade do texto prevalece sobre a sua produção.
Todo esse processo de redução do trabalho jornalístico, ou de
centralização de opinião, não impede o editor de citar, no editorial,
os números de entrevistas realizadas, os lugares visitados, e
todo o trabalho envolvido. A apresentação desses dados nos parece
ter dois motivos. O primeiro deles, é reforçar o caráter de
pesquisa em nome da suposta seriedade da revista sem, no entanto,
esclarecer que isso tudo é submetido ao grande poder de corte
do editor. O segundo é o apagamento dos conflitos entre redação
e edição, ou ainda, entre realidade e discurso sobre a realidade.
Na elaboração do texto inicial e dos relatórios, bem como na
própria pesquisa para a realização das matérias existe o maior
espaço para os jornalistas se manifestarem. No entanto, o poder
do editor é que predomina, selecionando, recortando, citando da
forma que lhe convém, dando voz aos sujeitos que ele escolhe, de
acordo com as posições que quer privilegiar. É um espaço de apagamento
do pensamento contraditório.
Conclusão
As Cartas ao Leitor de Veja mostraram-se uma forma privilegiada
com que a revista constrói um discurso sobre si, apresentando-
se enquanto um sujeito. Isso é feito para escondê-la enquanto
lugar de expressão de sujeitos reais, ou seja, um instrumento constituído
para a defesa de interesses de classe. Ao se credenciar como
portadora da verdade, aquela que seleciona os fatos que “realmente
importam”, a publicação se coloca como um ser neutro. Assim,
pode defender propostas, as mais diversas, de forma a afirmar uma
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suposta credibilidade. Está implícita a relevância que tem para Veja
a intervenção nos problemas nacionais e a freqüência com que ela
busca incidir sobre eles, cobrando ações da sociedade política, para
o que se utiliza da idéia de “defensora da opinião pública”.
Com esses artifícios, Veja tem se colocado como um sujeito
portador de uma função que não se restringe às relações com seus
leitores. Essa função diz respeito ao funcionamento da sociedade
brasileira, do país, e aponta para uma ação partidária concreta. São
muitos os mecanismos para isso, destacando-se o fato de que ela,
ao falar “para a elite”, os “formadores de opinião”, em outros termos,
aos intelectuais orgânicos, está formando uma classe dirigente
que deverá, segundo sua perspectiva, definir os “rumos da história”.
Os editoriais nos dizem muito sobre a forma com que a revista
quer ser “vista”, e contribuem para que ela se constitua em
efetivo sujeito político. A Carta ao leitor é um espaço de consolidação
desse papel, agregando noções como a de “quarto poder”,
“responsabilidade social” e “opinião pública”, que permitem naturalizar
esse “sujeito-Veja”, buscando ocultar os interesses aos quais
a revista efetivamente se vincula. Esses elementos permitem ocultar
a existência da “ação partidária” da revista.
O principal artifício que Veja se utiliza para “desaparecer”
enquanto portadora de intencionalidades próprias, de interesses
sociais e de frações de classe é a sua auto-definição enquanto
um “sujeito”, escondendo ser interveniente no próprio processo
histórico que é o eixo de sua ação. Para isso se coloca como defensora
de uma “missão” e de uma dada “responsabilidade”; se
atribui a função de “vigilante”; se posiciona como portadora da
“verdade”. É sob essas bases que se coloca a revista Veja, ocultando
sua ação concreta, omitindo assim seu papel enquanto
aparelho privado de hegemonia.
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2005. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal Fluminense,
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