A expressão, originalmente, é do Prefeito do Rio, Eduardo Paes, que, algum tempo atrás a pronunciou, esfuziante diante da possibilidade de sua cidade vencer São Paulo na disputa entre qual seria a sede da abertura (ou encerramento, sei lá!) da Copa do Mundo de Futebol, em 2014.
Mas não é este o assunto agora, e sim a retomada, em São Paulo, do antigo preconceito contra nordestinos. Alavancada pela virulenta campanha eleitoral e seu rescaldo, a onda fascistóide espalhou-se na internet através de blogs e redes sociais, com posts insultuosos contendo claras demonstrações de xenofobia, ódio e incentivo a ações de intolerância e discriminação contra os de cima (geograficamente...) em nosso país.
Acima no território, mas abaixo, por décadas, na escala de prioridades do Brasil e também na tabela classificatória de preconceitos da região sul/sudeste, a emergência das massas do nordeste como um ator político relevante nas urnas, capaz de votar em candidatos que identifiquem representar um projeto político que lhes enxergue e considere como parte do país, é algo que incomoda profundamente a “elite” paulista. Como já virou lugar-comum dizer, os miseráveis dos grotões e os pobres em geral votariam maciçamente em Lula/Dilma por conta de políticas públicas (consideradas "populistas") como o Bolsa-Família, o Luz Para Todos, o programa Minha Casa, Minha Vida; aumento do crédito, Prouni, etc
Tais análises ganham força apesar dessas políticas serem direcionadas para a população economicamente inferior de todas as regiões do país, e apesar, também, de os resultados das urnas apontarem que mesmo sem a vitória obtida em todos os estados do nordeste, Dilma teria votação suficiente nos demais colégios eleitorais para se eleger. Os preconceitos, mistificadores por sua própria natureza, ignoram a realidade factual e a análise racional, que mostram a vitória de Dilma no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, vizinhos de SP, e que teve alta votação também por aqui e demais estados do sul. Passa-lhes ao largo que há pobres em todas as regiões do país, e, principalmente, não se dão conta de que a disputa, ao contrário do que desejam insinuar, não se dá entre pobres x ricos ou nordeste x sudeste, e sim entre projetos políticos distintos, em que não há retirada dos últimos para dar aos primeiros, e sim uma (um pouco) melhor distribuição do crescimento. Não são capazes de observar, também, que as oligarquias nordestinas não morreram, apenas que o chefe do governo federal, o único cargo político que aparece ao “povão”, é um deles, afirma estar com eles, mas nem por isso joga contra o restante do país.
O preconceito contra nordestinos, que existiu em São Paulo ao longo de todo o século XX, revestiu-se de uma capa política nessas eleições, embora desde junho eu esteja atenta ao fato, ao observar a criação e disseminação de um movimento que se auto-denomina “São Paulo para os paulistas” (http://tudoporsaopaulo2010.blogspot.com/). Como o próprio nome já diz, o movimento é regionalista e não quer “estrangeiros” em São Paulo... Mas, curiosamente só se opõe à cultura e população nordestina, culpando-a pelas mazelas da cidade e defendendo seu retorno aos locais de origem, sem nada dizer sobre as migrações internas para São Paulo ao longo do século passado, que recebeu, também, grande contingente de italianos, e, em menor proporção, mas com presença marcante na cidade, japoneses e outros. São Paulo, cidade-mundo, com fama de ser cosmopolita, parece querer aceitar a todos, de onde quer que venham (mas com preferência pela Europa e os States, of course!), à exceção de nosos conterrâneos nordestrinos que ajudaram com seus braços a construir esta cidade.
Entrelaçam-se aqui os preconceitos de lugar e de classe, tendo em vista que a maioria dos nordestinos em São Paulo é pobre e ocupa posições subalternas no mercado de trabalho. Mas não só: existe uma representação simbólica amplamente disseminada, de que as regiões norte e nordeste são a “vanguarda do atraso”, lugares paupérrimos e de população inferior, classificada, a depender dos interesses contingenciais de quem fala, ora como violenta, ora como preguiçosa, mas considerados sempre como de inteligência e capacidades inferiores. A antropóloga Teresa Caldeira, em seu Cidade de Muros - crime segregação e cidadania em São Paulo, analisa, entre outras coisas, o medo do crime na cidade de São Paulo durante o período da redemocratização. Ela nota que, com grande freqüência, e especialmente no barro da Móoca, famoso por haver recebido grande migração de italianos, o aumento da violência e do crime é atribuído ao crescimento de nordestinos na cidade. A autora detecta, no discurso de seus entrevistados, que os nordestinos, neste momento, representam para a classe média o medo da decadência social que se avizinha e está relacionado à instabilidade econômica do país - medo este que é eclipsado na figura do migrante.
Hoje a classe média paulista não parece temer a decadência financeira, e nem me parece que os principais rotulados de criminosos sejam nossos conterrâneos de cima (embora estejam inseridos como sub-grupo na categoria maior de pobres e negros, os suspeitos de sempre). Entretanto, o que os paulistas dizem temer é o que chamam de “invasão cultural” – embora não deixem, de maneira nenhuma, de atribuir todos os problemas da cidade aos "baianos". Abaixo copio um trecho da abertura do documento escrito pelo movimento São Paulo para os Paulistas, que prometeu encaminhá-lo à Assembléia Legislativa e autoridades do estado:
O paulista olha ao seu redor e se vê um estrangeiro em sua própria terra. Presencia desrespeitos e hábitos impostos. Alta criminalidade, hospitais superlotados. Isto tudo relacionado à migração nordestina que a nossa terra sofreu nos últimos tempos. Entretanto, ao reagir e se manifestar sobre estes fatos, o paulista é criminalizado, acusado de ter “conceitos prévios”. Impuseram que era um tema proibido. Porém, isto não se cabe em um sistema democrático. Este Manifesto irá apresentar dados diversos e propôr formas de encarar o problema da Migração.
Neste momento, o que me parece estar em questão é uma crise de identidade em São Paulo, que não aceita a ulltrapassagem do período da política do “café-com-leite”, e quer ditar, se possível sozinho, os rumos do país. Ainda o estado mais importante da federação, em termos de população e recursos, São Paulo acostumou-se a se considerar a “locomotiva do país”, e têm dificuldade de ver o eixo político e de preocupações nacionais não girar apenas ao seu redor. Diante disso, parcelas da população reagem com indignação pueril, transformando-se, culturalmente, na “locomotiva do atraso”. Como já comentei em outro texto, a emergência de movimentos protofascistas costuma dar-se em contextos de crise econômica e política, o que não é nosso caso, atualmente. É uma crise de identidade e valores, de arrogância e não aceitação das mudanças sociais em curso no país. Mudanças que beneficiam também as parcelas mais ricas da população, que não só nada estão perdendo como estão ganhando com o bom momento vivido pelo país. Mas agem como crianças mimadas: querem ganhar sozinhos.
A arrogância dos paulistas que acostumaram-se a pensar como superiores está transpondo as barreiras da evitação e manifestação rotineira de preconceito e, embora incipiente, ameaça tornar-se um movimento político. Nós, paulistas ou não, e que enxergamos o perigo contido em tais proposições, temos o dever de combatê-las.
Leia também: Em manifesto na web, jovens paulistas criticam migração, Terra Magazine http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4605938-EI6594,00-Em+manifesto+na+web+jovens+paulistas+criticam+migracao.html
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