Mais além das urnas
De fato, a insatisfação com o modelito é a mesma em vários hemisférios, não importa a latitude, nem o meridiano
22/10/2010
Luiz Ricardo Leitão
Findo o 1º turno da tão decantada “festa” da democracia em Bruzundanga, ecoa na nebulosa e intempestiva “opinião pública” a velha cantilena sobre a inépcia eleitoral de nosso povo. Desta vez, a ira dos iluminados se volta contra o sucesso do candidato-palhaço Tiririca, cuja cifra absurda de votos (mais de 1,3 milhão) despertou não só o pasmo, mas a inveja de muitos patrícios, desde alguns parlamentares em visível final de carreira até intelectuais orgânicos de diversas filiações. Um tucano (ou seria raposa?) paulista, saudoso do PSDB “histórico e ideológico” (!!!), chegou a declarar que “hoje as ideias não interessam mais: quem não tem dinheiro, rádio ou apoio de bispo e pastor não se elege em SP”
Não faltou quem evocasse o episódio do rinoceronte Cacareco, o ‘vereador’ mais votado à Câmara Municipal de São Paulo em 1959, cuja candidatura, diga-se de passagem, foi lançada por um jornalista do Estadão, como um protesto contra “o baixo nível” dos postulantes à gaiola dourada de Sampa. Cá mesmo, no Rio, província sempre afeita às lides zoológicas, tivemos o famoso Macaco Tião, que, apadrinhado pela turma do Casseta & Planeta, ainda nos tempos do voto por escrito, em 1988, recebeu mais de 400 mil votos dos cariocas e mereceu até menção no Guinness Book, por ser “o chimpanzé mais votado do mundo.”
Quem pensa que esse "voto animal" é privilégio dos milhões de "analfabetos políticos" do nosso III Mundo está redondamente enganado. Gente muito chique, do fechado clube do G-7, também expressa seu desencanto em relação à velha fórmula do Iluminismo de Kant, Montesquieu & Cia. Ltda. (Ressalte-se, aliás, que mesmo entre os franceses nunca houve unanimidade acerca do modelo a ser adotado e que, se dependesse dos jacobinos, por exemplo, a democracia seria bem mais participativa do que veio a ser nas Repúblicas do Velho e Novo Mundo.)
Vejam, a título de ilustração, o que ocorreu na Alemanha, onde o humorista Hape Kerkeling criou um personagem puramente ficcional, chamado Horst Schlämmer, capaz de atrair o voto de 18% dos eleitores germânicos, ou seja, quase o dobro da porcentagem de votos que o Macaco Tião obteve para a vereança carioca (9,5%). Hape promoveu uma campanha bastante sarcástica, ao estilo do fanfarrão britânico Sacha Baron Cohen (diretor-ator de Borat e Bruno), com referências óbvias a grandes produtos do marketing político internacional, entre eles o "bom mulato" Obama. O slogan do político virtual alemão, por exemplo, era a frase "Yes, Weekend!" (Sim, fim de semana!), uma paródia escrachada do famoso bordão "Yes, we can!", que ajudou a eleger o atual síndico ianque.
De fato, a insatisfação com o modelito é a mesma em vários hemisférios, não importa a latitude, nem o meridiano. Contudo, mais além das urnas e das telinhas, o que nos cabe indagar é por que a inquietude persiste com tamanha amplitude entre nós. Não obstante a confusão de um eleitorado que anseia obstinadamente para superar o próprio analfabetismo político, o que se nota é uma tremenda expectativa de mudança em parcelas cada vez maiores da população. O clamor por uma educação de qualidade, em especial, tornou-se tão evidente, que todos os partidos foram obrigados a inseri-lo em sua agenda. O sinal das urnas é claro: a mera política de compensação social não basta para atender o desejo de progresso material e intelectual das classes populares, cujos direitos mais elementares lhes têm sido negados por séculos pelas elites.
O Tiririca, amigos, é apenas uma face de nossa complexa numismática. Basta lembrar quantos caciques execráveis da política tupiniquim foram varridos do Congresso graças às eleições do último dia 3. De uma só tacada, saíram os tucanos Tasso Jereissati e Arthur Virgílio, o demo-hipopótamo Heráclito Fortes e o senador Marco Maciel, que, desde os anos de chumbo da ditadura, é figurinha carimbada de Brasília. Isso sem falar nas derrotas memoráveis de Cesar Maia e Jarbas Vasconcelos, rechaçados fragorosamente por cariocas e pernambucanos.
Há ainda outras reflexões a fazer, sobretudo para nós, que continuamos à gauche, mas só nos unimos na cadeia. A candidatura de Plínio não decolou, porém os 180.000 votos dados aqui no Rio a Marcelo Freixo (PSOL) mostram que há espaço de sobra para quem deseja combater o bom combate, enfrentando de forma clara e contundente os inimigos do povo. De resto, vamos passo a passo. Por ora, para não dizer que não falei do 2º turno, tratemos de enterrar o Serra, emprestando um voto para Dilma...
Luiz Ricardo Leitão é escritor e professor adjunto da UERJ. Doutor em Estudos Literários pela Universidade de La Habana, é autor de Noel Rosa: Poeta da Vila, Cronista do Brasil e de Lima Barreto: o rebelde imprescindível.
Findo o 1º turno da tão decantada “festa” da democracia em Bruzundanga, ecoa na nebulosa e intempestiva “opinião pública” a velha cantilena sobre a inépcia eleitoral de nosso povo. Desta vez, a ira dos iluminados se volta contra o sucesso do candidato-palhaço Tiririca, cuja cifra absurda de votos (mais de 1,3 milhão) despertou não só o pasmo, mas a inveja de muitos patrícios, desde alguns parlamentares em visível final de carreira até intelectuais orgânicos de diversas filiações. Um tucano (ou seria raposa?) paulista, saudoso do PSDB “histórico e ideológico” (!!!), chegou a declarar que “hoje as ideias não interessam mais: quem não tem dinheiro, rádio ou apoio de bispo e pastor não se elege em SP”
Não faltou quem evocasse o episódio do rinoceronte Cacareco, o ‘vereador’ mais votado à Câmara Municipal de São Paulo em 1959, cuja candidatura, diga-se de passagem, foi lançada por um jornalista do Estadão, como um protesto contra “o baixo nível” dos postulantes à gaiola dourada de Sampa. Cá mesmo, no Rio, província sempre afeita às lides zoológicas, tivemos o famoso Macaco Tião, que, apadrinhado pela turma do Casseta & Planeta, ainda nos tempos do voto por escrito, em 1988, recebeu mais de 400 mil votos dos cariocas e mereceu até menção no Guinness Book, por ser “o chimpanzé mais votado do mundo.”
Quem pensa que esse "voto animal" é privilégio dos milhões de "analfabetos políticos" do nosso III Mundo está redondamente enganado. Gente muito chique, do fechado clube do G-7, também expressa seu desencanto em relação à velha fórmula do Iluminismo de Kant, Montesquieu & Cia. Ltda. (Ressalte-se, aliás, que mesmo entre os franceses nunca houve unanimidade acerca do modelo a ser adotado e que, se dependesse dos jacobinos, por exemplo, a democracia seria bem mais participativa do que veio a ser nas Repúblicas do Velho e Novo Mundo.)
Vejam, a título de ilustração, o que ocorreu na Alemanha, onde o humorista Hape Kerkeling criou um personagem puramente ficcional, chamado Horst Schlämmer, capaz de atrair o voto de 18% dos eleitores germânicos, ou seja, quase o dobro da porcentagem de votos que o Macaco Tião obteve para a vereança carioca (9,5%). Hape promoveu uma campanha bastante sarcástica, ao estilo do fanfarrão britânico Sacha Baron Cohen (diretor-ator de Borat e Bruno), com referências óbvias a grandes produtos do marketing político internacional, entre eles o "bom mulato" Obama. O slogan do político virtual alemão, por exemplo, era a frase "Yes, Weekend!" (Sim, fim de semana!), uma paródia escrachada do famoso bordão "Yes, we can!", que ajudou a eleger o atual síndico ianque.
De fato, a insatisfação com o modelito é a mesma em vários hemisférios, não importa a latitude, nem o meridiano. Contudo, mais além das urnas e das telinhas, o que nos cabe indagar é por que a inquietude persiste com tamanha amplitude entre nós. Não obstante a confusão de um eleitorado que anseia obstinadamente para superar o próprio analfabetismo político, o que se nota é uma tremenda expectativa de mudança em parcelas cada vez maiores da população. O clamor por uma educação de qualidade, em especial, tornou-se tão evidente, que todos os partidos foram obrigados a inseri-lo em sua agenda. O sinal das urnas é claro: a mera política de compensação social não basta para atender o desejo de progresso material e intelectual das classes populares, cujos direitos mais elementares lhes têm sido negados por séculos pelas elites.
O Tiririca, amigos, é apenas uma face de nossa complexa numismática. Basta lembrar quantos caciques execráveis da política tupiniquim foram varridos do Congresso graças às eleições do último dia 3. De uma só tacada, saíram os tucanos Tasso Jereissati e Arthur Virgílio, o demo-hipopótamo Heráclito Fortes e o senador Marco Maciel, que, desde os anos de chumbo da ditadura, é figurinha carimbada de Brasília. Isso sem falar nas derrotas memoráveis de Cesar Maia e Jarbas Vasconcelos, rechaçados fragorosamente por cariocas e pernambucanos.
Há ainda outras reflexões a fazer, sobretudo para nós, que continuamos à gauche, mas só nos unimos na cadeia. A candidatura de Plínio não decolou, porém os 180.000 votos dados aqui no Rio a Marcelo Freixo (PSOL) mostram que há espaço de sobra para quem deseja combater o bom combate, enfrentando de forma clara e contundente os inimigos do povo. De resto, vamos passo a passo. Por ora, para não dizer que não falei do 2º turno, tratemos de enterrar o Serra, emprestando um voto para Dilma...
Luiz Ricardo Leitão é escritor e professor adjunto da UERJ. Doutor em Estudos Literários pela Universidade de La Habana, é autor de Noel Rosa: Poeta da Vila, Cronista do Brasil e de Lima Barreto: o rebelde imprescindível.
Um comentário:
Bom texto do também estudioso de Cuba Luiz Ricardo Leitão.
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