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Veja e as Ciências Sociais:

10/06/2010

Critica a reportagem da Revista Veja da semana do dia 31/03/2010 intitulada “Ideologia na Cartilha” de Marcelo Bortoloti - http://veja.abril.com.br/310310/ideologia-cartilha-p-116.shtml

Fábio Luiz Cardoso
Julian Araujo Brito



“Veja”, em matéria de jornalismo ela repete de ano.

“É preferível ‘pensar’ sem disto ter consciência crítica, de uma maneira desagregada e ocasional - isto é, “participar” de uma concepção do mundo “imposta” mecanicamente pelo ambiente exterior, ou seja, por um dos muitos grupos sociais nos quais todos estão automaticamente envolvidos desde sua entrada no mundo consciente -, ou é preferível elaborar a própria concepção do mundo de uma maneira consciente e crítica, ser o guia de si mesmo e não mais aceitar do exterior, passiva e servilmente, a marca da própria personalidade?”.
Antonio Gramsci

A revista Veja carro chefe do grupo Abril, já se notabilizou por defender uma linha editorial que na maioria das vezes poderíamos chamar de liberal-conservadora. Expressão da visão de mundo de um dos maiores grupos que domina o mercado editorial de revistas no país, Veicula um ideário em perfeita consonância com os seus interesses de manutenção dos oligopólios que hegemonizam a comunicação brasileira. A ideologia empresarial difundida pela publicação pauta-se num liberalismo chulo que confrontado pela realidade brasileira só poderia adquirir os ares do conservadorismo mais mesquinho. Sua ideologia é descabida com relação a mais nua realidade brasileira. Neste sentido seus pontos de vista caracterizam, em geral, por uma crença cega no mercado como o ente superior de regulação social, além de destacar o Estado na maioria das vezes como mero instrumento policial. Os exemplos são fartos e vão desde a permanente condenação de toda e qualquer luta de trabalhadores por seus direitos, passando pela criminalização sistemática dos movimentos sociais indo até a apologia mais desmedida das sociedades do capitalismo central. Enfim, nos parece que Veja ainda permanece caudatária das disputas dos tempos da guerra-fria e com lado muito bem definido. Sua subserviência presta atualmente um desserviço a sociedade brasileira.
Veja costuma portar-se de maneira bastante típica: o que é bom para o ideário conservador ela mostra, o que não é, esconde. Com falácias e leviandades muitas vezes coloca pontos de vista errôneos e diversos a despeito do que realmente acontece. Veja, vale explicitar alinha-se, politicamente, com os partidos de direita, economicamente, defende as ideologias neoliberais. A revista hoje em dia é um grande panfleto (muito mal) travestido de verdade geral, publicando a sua opinião, ao invés do conteúdo proposto. É contraditória, ao mesmo tempo em que enaltece a modernização, propagandeia e defende também o status quo. Muitas vezes suas reportagens revelam preconceitos com relação a segmentos da população brasileira.
Os próprios “intelectuais” que ela costuma visitar, normalmente quando não são figurinhas marcadas, das mais diversas formações, dão ‘pitacos’ superficiais sobre tudo e todos, além de utilizar frases de autores totalmente fora de contexto e trabalhadas a dar os mais diversos sentidos a gosto de sua redação. Inúmeras vezes as fontes são negligenciadas e manipulações são constantes. A credibilidade da revista decai juntamente com sua tiragem ao buscar escrever semanalmente sobre tudo, acaba negligenciando inúmeros aspectos possíveis de abordagem, produzindo em grande parte reportagens de conteúdo raso e superficial.
Esta revista em questão busca atender aos anseios de um público cativo, basicamente caracterizado em sua maioria por uma classe média emergente, empresarial, financeira e pouco comprometida com o país enquanto nação. Assemelhando-se a um grande catálogo comercial, seus anúncios representam em média 50% de suas páginas, de modo que, sua linha editorial está em perfeita consonância com seus anunciantes. A própria gestão do Grupo Abril da qual Veja faz parte é atualmente controlada por um conglomerado de capital aberto internacionalmente. Consequentemente, seu comprometimento é claro, agradar, vender, reproduzir o estabilishiment e gerar dividendos. Sua redação é comprometida e limitada aos ditames do mercado e portanto, veicula uma visão específica e parcial.
O alvo da vez da Revista foi à implementação das nossas combalidas sociologia e filosofia como disciplinas obrigatórias nas escolas do país. Acusadas de transmitirem conteúdos ideologizados, a impressão que a matéria nos passa é que tais conhecimentos não servem para nada e que deveria-se priorizar a Matemática (no limite as ciências naturais), esses sim, conhecimentos necessários. Isto fica claro através da citação: “... aulas de sociologia e filosofia abusam de conceitos rasos e tom panfletário. Matemática que é bom...(nada!)”. O que na realidade não acontece.
Marcada por generalizações, insinuações grosseiras e desqualificações grosseiras, a matéria, por um lado cai na ilusão de acusar estas disciplinas de abusar da ideologia na confecção de seus currículos e nas aulas ministradas, como se fosse possível suprimir totalmente as ideologias (entende-se por ideologia, de maneira simplificada, como uma visão específica de mundo que todos os indivíduos consciente ou inconscientemente corroboram, podendo ter as mais diferentes matrizes teóricas e políticas). O autor da matéria, Marcelo Bortoloti, de forma implícita parece corroborar com as teorias que após o colapso da URSS pregavam o “fim das Ideologias” ou o “fim da história” (linhas de pensamento problemáticas nos debates contemporâneos), esquecendo-se, também, que seu texto é profundamente ideológico. Neste caso, não existe neutralidade, não existe isenção, não existe uma só história. Por outro lado, o repórter ignora as dificuldades e o curto tempo com que foram feitos os currículos, necessitando ainda retomar o debate com vistas a consolidar e dar maior unidade às diretrizes curriculares. Diversos atores são mobilizados para a confecção destes primeiros currículos, e é reducionista a atitude de apontar como preponderante a participação de um ou outro grupo nas suas formulações.
Longe de possuírem um caráter revolucionário na formação dos nossos estudantes, estas disciplinas são importantes na medida em que buscam estimular a reflexão, a compreensão sobre o mundo que nos cerca e também as relações que nele estabelecemos. Se estas disciplinas vierem acompanhadas da tarefa do questionamento, da problematização do pensamento e da sociedade existente – o que nem sempre acontece – elas podem sim contribuir para melhorar a formação dos estudantes no sentido de dar maior autonomia de pensamento e entendimento da realidade. A reportagem esvazia todas as possibilidades destes conhecimentos, apostando numa educação “tecnificante” que teria apenas o papel de reproduzir o que é dado. No limite seria apenas reafirmar a ciência como instrumento para a acumulação de capital. Limitar Impedir o fornecimento de novas ferramentas necessárias para o aprimoramento do pensamento, a compreensão e o entendimento do mundo, contribui apenas para continuar a formar mão de obra barata, incapaz de conhecer por seus próprios direitos.
Sociologia e filosofia foram aprovadas dês do ano de 2006 como parte fundamental dos currículos. Sua discussão vem de muito antes da reprovação no governo FHC. A ditadura militar, não por coincidência, extinguiu as aulas da grade normal, naqueles anos os cursos de ciências sociais foram asfixiados e a sociologia abolida dos currículos básicos, numa tentativa, entre outras, de despolitização da sociedade. Atualmente, longe de representar uma crítica ao sistema, a retomada das disciplinas desta área busca revalorizar o seu caráter intelectual e sua contribuição para a formação. Muitas escolas particulares por iniciativa própria mantinham aulas de sociologia e filosofia antes da nova lei, diversos países também optaram, a muito tempo, por oferecer estas disciplinas na grade normal de ensino, isto significa que elas devem ter muito a contribuir no processo de educação de crianças e adolecentes.
Compreender e conhecer os autores clássicos, desnaturalizar o mundo, investigar racionalmente o homem e a sociedade, podem ser, para além da sua importância intrínseca, considerados como conhecimentos menores que as tradicionais disciplinas matemática e português? Longe de descaracterizar a importância destas ultimas, a sociologia pode trazer contribuições no entendimento destas disciplinas. A nossa sociedade tem em seu seio uma complexidade tão grande e múltipla que angustia, acumula pressões que nos assolam todo o tempo. A sociologia pode ajudar a compreender as transformações tecnológicas e sociais, além de apresentar o conhecimento sociológico acumulado durante toda sua trajetória. Portanto, pode ser uma tentativa de enfrentar com muito mais propriedade a esfera da vida cotidiana, e oferecer a possibilidade de intervir com qualidade no nosso atual cenário político.
Atualmente, por mais que o discurso oficial defenda a formação de cidadãos, as atuais práticas escolares não corroboram com este objetivo. Uma formação completa, humana e cultural, que faz com que o aluno possa transformar-se e entender-se inserido em um contexto social específico (conhecer no limite sua própria cultura) está longe de ser alcançada. Este ideal vem sendo substituído pela “formação para o mercado”, formação que de tão baixa qualidade cada vez mais fica longe das exigências do próprio mercado. Nesse sentido, a sociologia e a filosofia nas escolas vêm tentar recuperar esta dimensão de formação (cidadã) em seu sentido mais amplo e qualitativo. As aulas de sociologia e filosofia permitem uma passagem mais segura do universo infantil, que é mais individualista, para o mundo adulto, auxiliando no amplo desenvolvimento dos alunos. Conhecimentos essenciais que de nenhuma maneira pretendem formar sociólogos ou filósofos, como as aulas de física não tem pretensão de formar físicos, mas sim o objetivo de habilitar o aluno com novas capacidades.
Sendo assim nos impõe analisar alguns pontos específicos da reportagem que demonstram mais claramente as afirmações supracitadas. Ao invés de tentar analisar problemas, discutir, mostrar diferentes interpretações e propor alternativas, o artigo centra-se em desqualificar completamente a implementação das disciplinas, generalizando e simplificando assim toda a abordagem. A posição da revista frente ao tema é tomada logo de início, no título, e irá nortear toda a reflexão que se segue.
No início da reportagem Marcelo Bortoloti diz ter consultado especialistas que afirmam que a maneira como foram confeccionados os currículos de sociologia limita ao invés de ampliar o horizonte dos alunos. A dita “simplificação” é necessária para a compreensão inicial dos conceitos, em que sentido prejudica o entendimento do conteúdo? Se for o caso como melhorá-los? Atualmente disciplinas consolidadas como matemática, história, química e física simplificam sistemas, formulas e conceitos, a fim de promover um avanço gradual do aluno, assim, tal fato, para a sociologia, não é algo descabido. Demonstra-se que o jornalista se esforça para descaracterizar a todo o custo as disciplinas sem realmente se propor a analisar o tema.
A reportagem cita que, produzir como exercício regimentos internos para organizações sociais, seria um absurdo. Entre outras atividades que o currículo do Acre propõe, esta pode ajudar o aluno a ter um senso de coletivo, uma visão crítica dos regimentos das mais diversas organizações sociais, longe de prestar apenas como meio de propagandear algum tipo de ideologia específica. Afinal, estas organizações fazem parte da sociedade civil e são importantes para a sociedade democratica, estudá-las pode ser um bom exercício. Na reportagem não é dada a devida complexidade aos temas que o jornalista se propõe, a inserção de questões culturais locais nos currículos é criticada, porém, se não prejudicarem os conteúdos clássicos da disciplina, essas atividades ajudam não só a discutir e afirmar a identidade cultural local como conscientizar o aluno do ambiente em que está inserido.
Tentando mostrar suas habilidades intelectuais, o redator do artigo comenta sobre um trecho do currículo de Goiás: “’a constante diminuição de cargos em empresas do mundo capitalista é um fator estrutural do sistema econômico’. O repórter então intervém: “visão pedestre que desconsidera o fato de que esse mesmo regime resultou em mais e melhores empregos no curso da história”. Podemos fazer algumas considerações: a história nem sempre vivenciou a produção capitalista, esta quando surgiu utilizou-se de uma forma específica de produção. No início, os empregos multiplicaram-se nas cidades, já que as indústrias modernas antes não existiam. Em geral eram trabalhos de 14 a 16 horas, com baixíssima remuneração e péssimas condições. Alguns postos de alto escalão surgiram, mas eram exceção. Com o tempo, desenvolveram-se a produção, as tecnologias e também as proteções aos trabalhadores (diversas e sangrentas lutas acabaram por gerar direitos e jornadas mais humanas); multiplicaram-se as áreas de trabalho e muitas delas foram extremamente facilitadas pela introdução cada vez maior de novas máquinas. No entanto, estas mesmas facilidades e tecnologias reduziram significantemente os postos de trabalho das indústrias, assim, empresas que empregavam 1000 passaram a produzir mais, melhor, com menos custos e empregando 10; a capacidade de crescimento de novos empregos atingiu a um patamar estável e limitado. Nenhuma indústria cresce mais ou surge como nos patamares anteriores. O atual crescimento absorve ano a ano mão de obra, porém, não de maneira suficiente para atender a demanda por emprego (novos e jovens trabalhadores juntamente com aqueles desempregados pelo avanço tecnológico). Vemos hoje, a concorrência, a exigência de qualificação, e o amplo desemprego como problemas sociais reais e atuais. O sistema capitalista não é voltado para o desenvolvimento das categorias humanas e sim do capital, produzir mais com menos custos e não trabalhar menos, com mais qualidade de vida e preservando o meio ambiente, consequentemente, o desemprego tende a se manter ou ampliar. Este processo é estrutural, pois faz parte do funcionamento deste modo de produção específico que exclui grande parcela de trabalhadores do mercado após atingir certo patamar. Inverte-se assim a lógica de nosso jornalista tornando a sua definição, e não a do trecho destacado, pedestre.
Outra inadequação pode ser detectada com relação a indevida associação da queda do comunismo no mundo e a depreciação do pensamento de Karl Marx. Não houve práticas que seguiram por completo qualquer escrito de Karl Marx. No caso russo especificamente, entre outras características, a sociedade possuía algumas estruturas feudais antes da revolução, contexto histórico completamente diverso do previsto por Marx. O autor do artigo ainda fala da importância e complexidade de Marx, mas desqualifica erroneamente e prova completo desconhecimento de sua obra ao comentar sobre a dialética do materialismo histórico, que em sua visão não significa nada. Passagens contraditórias e que revelam grande ignorância do assunto.
Outros pontos importantes ainda merecem atenção, se não existem atualmente profissionais em número suficiente para atender a demanda das novas disciplinas, isto significa que atitudes no sentido de promover a formação prévia de professores não foram devidamente tomadas, assim como a desvalorização dessa carreira tem se intensificado. Atualmente faltam professores, sobretudo de física e geografia, devemos incentivar estes profissionais e a formação de novos ou devemos excluir estas disciplinas? No caso da sociologia e da filosofia a mesma lógica se aplica.
A partir dos apontamentos do início deste artigo é evidente que não se sustentam diversos pontos de vista defendidos por Veja. A revista na ânsia de descaracterizar qualquer atitude que vise o desenvolvimento do ensino de maneira diferente de seus referenciais mercadológicos termina por desvalorizar, sem maiores critérios, a inserção das novas disciplinas; ademais, utiliza esta inserção para criticar o atual governo de maneira implícita. Infelizmente, esse tipo de matéria prejudica não apenas os sociólogos, filósofos e grupos atingidos, mas principalmente a opinião pública.
A lei que sanciona as aulas de sociologia e filosofia foi aprovada após toda uma trajetória de análises e debates, descaracterizá-la como feito nas páginas especificadas de Veja, com retórica agressiva, é uma atitude claramente antidemocrática. Desta forma, compreender Veja e seu papel é saber que suas posições políticas são específicas e se repetem nos temas que ela se propõe a tratar (todas as publicações do grupo abril sempre reproduzem as mesmas opiniões e ideologias relativas aos diversos assuntos abordados). Desmascarar as suas posturas panfletárias é no limite o que seus editores mais temem, o combate a implementação das disciplinas de filosofia e sociologia é uma tentativa de impedir o aprimoramento da educação pública brasileira. Seus equívocos não são condizentes com seu (declinante porem ainda expressivo) prestígio, e mais, Veja necessita de um grande salto qualitativo para além de suas posições políticas.
Com esta nova lei (lei nº 11.684 de 2 de junho de 2008 que institui as disciplinas de sociologia e filosofia) o Brasil corrige uma negligência de anos com relação a qualidade do nível educacional público, oferecendo disciplinas a muito consolidadas e importantes para a uma formação educacional mais completa. Os alunos brasileiros possuem capacidade de aprender os novos conteúdos propostos e devem ser estimulados a serem mais reflexivos e não restringidos, censurados e limitados como Veja propõem. Está mais do que claro que não é seguindo os conselhos de Veja que o Brasil vai conseguir fazer a sua tão necessária reforma da educação com a devida qualidade.

Bibliografia:

GRAMSCI, Antonio. (1999) Cadernos do cárcere. Nelson, Coutinho; Luiz Sérgio Henriques & Marco Aurélio Nogueira (org.), trad. Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

BORTOLOTI, Marcelo. Ideologia na Cartilha. In: Veja - educação - 31 de março de 2010, p. 116 à 117.

BOTTINO, Nathalia. (2010) Só sei que agora eu sei. In: Contexto, ano 26, nº 50, Abril de 2010.
SILVA, Carla Luciana. (2010) “Veja foi indispensável para construir o neoliberalismo”. In: Brasil de Fato - http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/entrevistas/veja-foi-indispensavel-para-construir-o-neoliberalismo/view. Acessado em 10/05/2010 às 10h e 30 min.
MAGALHÃES, Luiz António. (2008) A revista que virou panfleto. In: Brasil de Fato - http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/analise/a-revista-que-virou-panfleto/?searchterm=veja. Acessado em 12/05/2010 às 14h e 20min.

FC

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